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"Nenhum pai deve querer o filho ignorante"

 

Como vê a actual polémica sobre a educação sexual nas escolas?

Esta polémica é cíclica. Ciclica-mente há gente a contestar a educação sexual (ES) e a dizer que leva as crianças à perversão e ao início precoce da actividade sexual. Está cientificamente provado que isto é falso. Pelo contrário, o cidadão informado é o que toma decisões responsáveis. Há imensa desinformação e assustam-se os pais, porque não há dados sobre as coisas. Isto é como se fosse um prato de uma balança umas vezes vai para um lado ou para outro, de forma completamente tonta. E esta área é sempre tratada desta forma: mistura-se política com religião e com ciência, fala-se disto durante duas semanas e depois não se fala durante dois anos. E isso não pode ser.

Foi nomeada pelo anterior governo para a coordenação da Educação para a Saúde (que inclui a ES) mas não chegou a tomar posse...

Não cheguei a tomar posse devido à mudança de governo. Mas em parte esse compasso de espera deveu-se a mim quando em Janeiro de 2004 David Justino (ex-ministro da Educação) me convidou para a coordenação, estava de novo uma grande polémica nos jornais, com esta coisa do achismo: toda a gente a achar coisas sobre a educação sexual. E pedi para fazer um estudo, uma avaliação prévia, antes de ser nomeada.

A avaliação tem um ano e ainda não foi divulgada... Pode falar das conclusões?

Tem de ser a tutela a revelá-las. Mas posso dizer que chegámos a uma conclusão coincidente com aquilo que o presidente da Confederação das Associações de Pais diz que quer é preciso haver uma dinâmica curricular nas escolas em que não haja apenas a ES, mas promoção da saúde em geral. Não uma aula, mas um espaço delimitado em termos de carga horária, com uma avaliação inovadora que credita para a média e com um professor responsável.

Corre uma petição que exige o carácter opcional da ES. Que acha disso?

A Matemática é opcional? Não é! A educação para a saúde é um conhecimento científico. Devemos ensinar às pessoas aquilo que sabemos sobre a protecção e o risco. Nenhum pai consciente deveria querer o seu filho ignorante.

Como viu os exemplos de propostas de abordagem citados no artigo do Expresso que desencadeou a polémica?

Descontextualizar é muito fácil e sabemos como essas coisas se manipulam. Aquilo só pode ser informação descontextualizada, pelo que sei dos técnicos envolvidos na ES e pela avaliação que fizemos não tivemos nenhumas escolas a queixarem-se de nada parecido. É contra-informação no pior sentido: é o Benfica/Sporting, os que estão contra e os que estão a favor.

Um psicólogo americano endereçou uma carta aos pais portugueses, publicada no Expresso, pedindo ajuda para matar "o monstro" da ES. Comenta?

O artigo desse senhor é um perigo em termos de saúde pública, porque nos são apresentados resultados sem nos darem os métodos nem nos citarem as fontes. Diz ele que a ES aplicada numa escola de freiras fez metade desistir dos votos e as outras transformarem-se em "lésbicas radicais". Gostava de saber como chegou a essa conclusão. Penso que chegámos a uma altura em que perdemos todos a razão e a serenidade, o que é dramático para todos os jovens e crianças portuguesas. Toda a gente aparece com mais uma opinião, e isto porque, e vou dizê-lo uma vez mais, não há uma avaliação consistente e competente levada a cabo por profissionais.


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