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São loucos, estes gauleses

 

Ajoana

amaral

dias

construção europeia tem sido um processo autista e surdo à vontade dos cidadãos. É assim desde o início, revelou-se no seu esplendor com esta constituição kafkiana e tentará persistir depois dos referendos. O "não" dos franceses é, assim, lúcido, oportuno e transformador. A "saudável loucura" contra o cinzentismo de interesses e influências de Giscard d'Estaing e companhia.

Se Chirac apostou no referendo, foi apenas porque, como toda a elite desta engenharia, nunca pôs na equação a vontade dos cidadãos. Ébrio da tal cegueira que fez da União Europeia um espaço mais económico do que político ou identitário e produziu pouco democraticamente este tratado vazio de direitos sociais e laborais, Chirac apenas declinou a ratificação na Assembleia Nacional porque nunca supôs o resultado deste domingo. O que podia parecer uma enunciação democrática, foi, sobretudo, um erro de cálculo, produto da sobranceria eurocrata.

Os sintomas desta espiral continuaram durante a campanha do referendo, quando foram instigados medos apocalípticos ou se estereotiparam arrogantemente os defensores do "não" como irresponsáveis, ignorantes ou demagógicos (e mesmo quando a análise das sondagens evidenciava o contrário).

O desprezo pela voz dos cidadãos perdurou quando a deslocalização de empresas, o desemprego, a directiva Bolkestein e o alargamento à Turquia se tornaram temas fortes durante a campanha.

Os principais dirigentes falharam igualmente em identificar o óbvio e até em o louvar estas são as preocupações reais e legítimas dos franceses e de muitos europeus que, pela primeira vez, encontraram momento para a sua discussão.

O repúdio pela agenda dos cidadãos persiste nas primeiras reacções aos resultados.

Enquanto se contam os cadáveres políticos e se preparam novos protagonismos (sem entenderem também o descontentamento geral dos franceses com a classe política) tece-se esse desdém.

Isto é, as hipóteses que para já se colocam vão no sentido ou de aprovar o tratado de qualquer forma (seja com o argumento de que a maioria dos países o aprovaram, seja por novo referendo ou mesmo por negociações de compromisso), ou então de negar a irreversibilidade, achando que se ficará na mesma, como se estava antes do referendo. Em ambos os cenários se imputa aos defensores do não a "paragem na História", o "pântano" ou a "estagnação".

Reconhecer integralmente a sucessão de erros que levaram a esta situação, procurando transformar a crise em oportunidade, começando a curto prazo o que deveria ter sido elaborado muito antes dos referendos, lançando desde já mecanismos fortes de aproximação da UE aos cidadãos, dando respostas às muitas questões que realmente os absorvem, criando o tal espaço europeu que nunca passou de promessa, continua para as calendas. É mais fácil e menos ameaçador culpar os que desobedeceram num referendo de sentido único e fizeram da cruz uma assinatura igual à do bilhete de identidade.

Compreender que grande parte dos votos no "não" (em França, na Holanda, na Dinamarca) são de europeus que querem a UE, mas que a querem outra, parece ser uma charada para os eurocratas da Europa à sua imagem e semelhança.

Assim, o divórcio entre esta cúpula e os eleitores ameaça tornar-se litigioso, e os europeus encontrarão amanhã, mais do que até este domingo, motivos acrescidos para justificar um "não" e para o repetir, se necessário.

Se persistem em adiar a Europa dos povos e democracia da UE, os franceses já mudaram parte da rota. Como só eles o poderiam fazer, já que sempre entreviram possibilidades para além das atlânticas.

O contrário se passará em Portugal, onde esse arrojo é refém da visão da Europa como rendimento e não como projecto, um arranjo conveniente como já era no tempo de Salazar.

Em consentâneo, resta um referendo coincidente com eleições autárquicas e onde os riscos parecem já ter sido ensaiados "no estrangeiro". Comme il faut.

genecanhoto@hotmail.com


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