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O segundo estado de graça?

 

Em noite de carnaval televisivo, euforia foi a palavra de ordem. Mas no dia seguinte à vitória benfiquista, lá estava o segundo acto de Défice II agora em S. Bento, prosseguia a peregrinação do arauto do desastre financeiro, anunciada entre o Benfica-Sporting, na Luz, e a final da UEFA. O uso do futebol para desviar as atenções e tomar medidas impopulares refinou-se: o timing da política é o timing da bola. O segundo estado de graça do Governo começou ontem, a partir do momento em que milhões de benfiquistas acordaram sentindo-se campeões. A previsão é de que a festa do triunfo vá continuar por vários meses. A televisão é vital para construir este estado de alheamento da realidade e tem cumprido o seu papel.

invisível. Dir-se-á que o défice é invisível e, por isso, menos notícia que o futebol. Mas, no domingo, a televisão mostrou muito pouco futebol. O jogo do Bessa passou na Sport TV e os outros canais mostraram apenas um resumo. E, curiosamente, as imagens do jogo do Sporting demoraram muito tempo a chegar aos ecrãs. Na RTPN, por exemplo, foram mostradas durante o excelente Trio de Ataque, já a noite ia avançada. E Jorge Coroado não teve dúvidas, no comentário da SIC, em afirmar que o Sporting foi grosseiramente penalizado pela arbitragem, com efeitos directos na classificação do campeonato. Não quero andar aqui a discutir arbitragens, mas as imagens eram inequívocas. Surgiram já com a maré benfiquista bem alta.

Exceptuando a SIC, que conseguiu manter alguma frieza, as televisões não falaram da realidade do que se passou no terreno. Nada podia ofuscar a festa ou cortar o discurso heróico em torno de uma equipa que, como as adversárias, arrastou-se penosamente ao longo do campeonato. Essa realidade não interessava ao discurso televisivo, empenhado em tornar verídica a ilusão de glória atingida no final de uma época pouco gloriosa.

A coisa foi a um ponto tal que a RTP deu a notícia do título através de Ana Sousa Dias, vestida de cachecol benfiquista, no final das Escolhas de Marcelo... Mas, domingo, o Telejornal que começou quase ao mesmo tempo que os golos no Bessa, não abriu com futebol, ao contrário dos outros serviços noticiosos da RTP durante o fim-de-semana. Abriu com uma notícia sobre o aumento do IVA...

A violência na Avenida dos Aliados foi o lado negro da noite. E também aqui a SIC foi a mais atenta... A claque portista era como uma tribo do neolítico a defender o território. E o tribalismo do futebol é uma reformulação da política. E enquanto as tribos se entretêm, as pessoas crescidas tratam do IVA. É o glorioso estado de graça.

A alegria da nação benfiquista é o alívio do Governo da nação. E siga o 'Défice II'.

Miguel Gaspar

e-mail

miguel.gaspar@dn.pt


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