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O 'não' que vem das profundezas

 

Bmiguel

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audrillard: a uma semana do referendo, este filósofo interroga-se sobre a tenacidade do "não" francês, "para lá da razão política".

Essa é, de facto, a grande revelação, tanto mais significativa quanto a desproporção de meios entre os dois campos é abissal.

As lideranças partidárias a favor do "sim" representam 70 por cento do eleitorado francês; na televisão, a repartição entre "sim" e "não" é de 75 para 25; na imprensa escrita, a desigualdade é ainda mais acentuada; e, finalmente, existe um envolvimento aberto do poder de Estado e das instituições europeias, que abdicaram do dever de isenção, em favor do "sim".

Apesar de tudo isto, apesar de nas cidades francesas as frases mais benignas do Tratado inundarem, à chinesa, a paisagem urbana, o "inexplicável" acontece pelo menos metade dos franceses não se impressiona nem se deixa convencer "pelos que sabem". Uma "dissidência silenciosa" está a tomar conta da França. E o filósofo conclui pela existência de "um cadáver na montra".

Esse cadáver não é exactamente o Tratado ou a Constituição, como prefiram chamar-lhe.

É o modo de existência da política contemporânea, a intolerabilidade de um exercício do poder onde tudo o que se pede ao povo "é o consenso", o "sim ao 'sim'", porque aí se encontram "os bons do lado do Universal" contra os outros, "os enviados para as trevas da História".

Baudrillard compara este "'não' das profundezas" ao que, faz dois anos, tentou evitar a ocupação anunciada do Iraque.

Em ambos os casos, segundo ele, os de cima procuram impor as suas escolhas contra as opiniões da maioria. E o "não" representaria, simplesmente, a rejeição desse modo de existir da política. "O 'não' não é um 'não' à Europa, é um 'não' ao 'sim'", à sua arrogância totalitária. Tem razão.

Negri: um segundo filósofo, este situado na extrema-esquerda do pensamento político, interveio na liça, mas pelo lado do "sim".

Numa breve entrevista ao Libération, Toni Negri explica que o Tratado é mais um passo para acabar com a "merda do Estado-Nação", incapaz de se afirmar como "contrapoder à dominação imperial".

O sentido do seu voto destinar- -se-ia, assim, a evitar o desaparecimento da Europa...

O filósofo italiano é, seguramente, um dos mais criativos teóricos marxistas contemporâneos. A sua última grande obra, Império, inspirou milhares de activistas dos movimentos por uma globalização alternativa.

Sucede que um dos aspectos mais polémicos do livro - que o poder na sociedade capitalista globalizada deixou de ter centro ou centros, para se exprimir em rede - recebeu, com a invasão do Iraque, um poderoso desmentido factual.

Afinal, o Império "ainda" tinha centro. A História pesava "ainda" sobre as novas tendências que o autor iluminava com a sua análise e da qual deduzia um novo antagonista - a "multitude".

Agora, pelos vistos, esta precisa da ajuda da Europa do Tratado para se bater contra "o golpe americano no Império".

O mais curioso na posição de Negri é que o seu argumento se exprime enquanto pura razão de política fria.

Como se o autor se tivesse esquecido, de novo, que os modernos antagonismos não dispensam "as profundezas" da História.

Se há evidência na disputa francesa, é a de que só o "não" leva a Europa a discutir-se.

Mais só o "não" provoca a emergência de um novo protagonista no debate europeu - precisamente a "multitude" tão incensada pelo filósofo...

Pacheco Pereira: Não é por causa da "multitude", e muito menos devido ao Império, que Pacheco Pereira decidiu esta semana entrar abertamente no debate sobre a Europa do Tratado.

O seu ponto de vista não está ainda detalhado, mas creio não me enganar se disser que o seu "não" é contra os saltos no abismo que fazem tábua rasa das histórias das nações e se estampam por "excesso de voluntarismo".

Pacheco passou uns anos pela Europa - vulgo Bruxelas e Estrasburgo - e viu o mesmo que eu que a "Europa" é uma construção tecno-iluminada, divorciada das opiniões públicas e, acima de tudo, um casamento de interesses sem grama de paixão.

Do diagnóstico, presumo que Pacheco infira que não se deve andar depressa de mais ou, pior, que se dêem os passos errados que alimentam as "profundezas" das reacções soberanistas. Se este é o argumento, merece discussão séria.

Aliás, a discussão séria começa exactamente onde acaba a chantagem miserável que visa condenar cada um de nós a dizer simplesmente "sim" ao "sim", porque a alternativa é o caos.

A 29, se os franceses votarem por quantos reclamam, na Europa, o direito à inteligência, se verá que não.

www.miguelportas.net


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