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Sena e 'O Reino da Estupidez' em filme

por

eli Sabete frança  

O Escritor Prodigioso, documentário de Joana Pontes no rasto de Jorge de Sena (1919-1978), tem hoje antestreia em Lisboa, na Cinemateca (21.30). A seguir, Jorge Fazenda Lourenço, da Universidade Católica, especialista na obra do poeta, ficcionista, ensaísta, tradutor, dramaturgo, professor e engenheiro, apresenta A Arte de Jorge de Sena - uma antologia e Sobre Literatura e Cultura Britânicas, títulos que organizou para a Relógio D'Água.

Com título que glosa a obra-prima O Físico Prodigioso (novela, 1977), o documentário, em duas partes; uma com a viúva Mécia de Sena, mãe dos seus nove filhos e guardiã do espólio, filmada em St.ª Barbara, Califórnia; outra com materiais de arquivo e "testemunhos de pessoas que acompanharam e conheceram bem" o escritor, descobertas pela realizadora "nas cartas" - diz ao DN. É uma indagação, a esclarecer porque foi Jorge de Sena tão indesejado no País, porque não voltou nem depois de 1974, vivo ou morto.

O filme acrescenta algo à conhecida independência incómoda, à grandeza de fazer sombra, ao alegado mau feitio. Só um exemplo na Faculdade de Letras de Lisboa, com o 25 de Abril e admissão de professores antes discriminados, Joaquim Manuel Magalhães propôs Sena. Discordou Jacinto Prado Coelho: o organizador do Dicionário da Literatura Portuguesa (onde o poeta de Peregrinatio ad loca infecta não tem entrada nem quase referências) fez votar a proposta, que saíu vencida.

Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos (1973), amaríssimo libelo de Sena por interposto Poeta, determinará "Nada tereis de mim, nada, nem os ossos." E seus ossos não temos No País dos Sacanas, ficaram no exílio dos últimos anos (St.ª Barbara, em cuja universidade fez carreira, como em Madison, Wisconsin e no Brasil). OReino da Estupidez impediu o seu regresso. Mas "a morte não pôde tudo" pela obra, às vezes é lembrado, cá volta.

N'O Escritor Prodigioso, volta em memórias de Mécia, de Fernando Lemos, Helder Macedo, José Saramago, José-Augusto França, Eduardo Lourenço, Bénard da Costa. A autora desta abordagem, à vida e obra do dramaturgo d'O Indesejado, pretendeu-a "pessoalíssima, não ilustrativa", "em busca do escritor" descoberto aos 17 anos na rádio, "num poema tão extraordinário" que a fez telefonar "para conhecer o poeta". Aos 30 anos, deram-lhe um livro que tal poema abria... E ainda "foi um longo processo"até o projecto, produção Laranja Azul, ter subsídio do ICAM.


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