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'Um Número' de Caryl Churchill no palco da Culturgest

por

maria joão caetano  

E se de repente descobríssemos que, além de nós, existem outros como nós. Exactamente como nós. "Um número indeterminado deles, de nós, um número considerável" de clones, fabricados a partir do nosso material genético. E se de repente, ao dobrar a esquina, nos encontrássemos connosco próprios? "Se sou eu ali então quem sou eu?"

É esta a dúvida que assalta as personagens de Um Número, peça da dramaturga inglesa Caryl Churchill que o Teatro Assédio apresenta a partir de amanhã e até dia 25 no pequeno auditório da Culturgest, em Lisboa. Após um casamento dominado pelo álcool e após o suicídio da mulher, um homem (interpretação de João Cardoso) assume o seu falhanço como pai e decide entregar o filho de dois anos a uma instituição. Recuperado do vício e com vontade de começar de novo, o pai percebe a impossibilidade de reencontrar o seu filho naquela criança, que entretanto cresceu e se lhe tornou estranha. "Eu lembrei-me de como tu tinhas sido no início e poupei-te, eu não queria um filho diferente, queria aquilo outra vez, porque tu eras perfeito tal como eras e eu amava-te" , explica este pai, trinta anos depois, tentando justificar a opção de clonar o seu próprio filho. Só que, como se veio depois a descobrir, em vez de um foram feitos vinte clones.

Stephen Daldry, encenador que estreou esta peça em Setembro de 2002, em Londres, tinha já dito "a clonagem que motiva a peça não é a sua verdadeira preocupação. Eu acho que o tema da peça é a natureza do livre arbítrio: o que é o livre arbítrio e em que medida é que ele é determinado pelo nosso património genético ou antes pelo ambiente em que crescemos. Mais simplesmente, é um conflito entre a natureza e a educação". Da mesma forma, para João Pedro Vaz, encenador e actor que interpreta os filhos,"a peça não tem qualquer conteúdo futurista ou de ficção científica, a clonagem é só um pretexto para falar de outras coisas". O que é realmente importante aqui, no seu entender, são as questões em torno da identidade e a relação entre pai e filho - o filho original, abandonado por um pai monstruoso; o filho "adoptado", amado por um pai dedicado e desorientado perante a descoberta; e um dos vinte clones, anónimos, que foram colocados no mundo. Como é que cada um reage a esta informação? De que forma vai ela alterar a sua vida? Quem sou eu?, perguntam-se. "Tu és tu porque é isso que tu és", diz-se a certa altura.

Para o actor, que se desdobra de modo excepcional em três personagens, a identidade de cada um destes filhos joga-se, por um lado, na possibilidade de diferença (diferentes educações, experiências, personalidades que originam diferentes atitudes) e, por outro, na relação que estabelecem com o pai (e também o pai é diferente com cada um deles). E se de repente, ao virar a esquina... "As pessoas não costumam dizer que morremos quando nos encontramos a nós próprios?"


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