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Sjoana
amaral
dias
e não resulta, porque insiste? O que é que Bush e o Dalai-Lama têm em comum? Se calhar muitas coisas. Uma delas é a perspectiva sobre os bombistas suicidas. Ambos os consideram homens desesperados, actos sem sentido. A memória de suicídios políticos como o de Maurice Ploscowe (candidato republicano ao Congresso em 1976) ou a imolação dos monges budistas no Vietname, em 63, parece não influenciar a sua opinião. Do mesmo modo, os atentados suicidas feitos pelos zelotas, por ordens cristãs nas cruzadas, na revolução belga ou na Segunda Guerra Mundial, são esquecidos e associa-se o fenómeno ao mundo islâmico ou à contemporaneidade o homem não educado ou culto, manietado por ideologias, sem filhos, desempregado, disposto a tudo e sem nada a perder. A ideia passa, aliás, em dois filmes recentes (nenhum brilhante, mas bastante vistos), O Assassínio de Richard Nixon e A Intérprete.
Não só o horror dos ataques suicidas tem novas características (o crescente número de mulheres), como a investigação actual (do antropólogo Scott Atran e de Alberto Abadie, professor de Política em Harvard) desmente o cliché, mostrando como a maioria tem formação superior e pertence à classe média. Concluem que a violência terrorista, mais do que potenciada pelo desespero "individual", é catalizada pela falta de liberdade política. Pergunta-se, então, porque é que depois de deposto Saddam e das eleições, o número destes ataques no Iraque está em escalada, com os últimos meses a apresentarem registos brutais e a probabilidade da guerra civil a aumentar. Anteontem, Condoleezza Rice declarou que os insurrectos serão vencidos com uma "alternativa política forte". Precisamente alternativa (não a situação presente) e política (não militar). Mais forte do que a motivação de homens e mulheres dispostos a dar a vida e tirar a dos outros por uma ideia, mesmo que absurda para os demais. Caso contrário, ficam as palavras de Dostoievski: "Nada mais fácil do que identificar o mal, nada mais difícil do que compreendê-lo."
Palavras Cruzadas. Vários colunistas, entre os quais Francisco José Viegas (Jornal de Notícias, 12/05/05) protestaram contra a censura de Lula relativamente a palavras como "preto", "veado", "anão", associando esta cartilha à esquerda e ao seu suposto "politicamente correcto". Não é legítimo fazê-lo e basta ver como vai a linguagem nos EUA. Proibido dizer preto, tem que ser african-american. Proibido dizer índio, obrigatório native-american. Se alguém disser negro ou pessoa de cor, enfrentará consequências bem piores do que as de um brasileiro ao dizer "veado".
Este fim-de-semana um escândalo rodeou as declarações do Presidente mexicano. Sobre a importância dos seus emigrantes no de-senvolvimento dos EUA, disse "Fazem trabalhos que nem os pretos querem." Falava em inglês (as subtilezas de uma língua estrangeira…) e no seguimento das declarações de Bush, que havia afirmado: "Os americanos não estão dispostos a todos os tipos de trabalho." Fox foi acusado de racismo e da crescente tensão entre os EUA e o México, desde que os americanos colocaram voluntários armados (não polícias ou pessoal treinado) nas fronteiras para impedir a entrada de imigrantes ilegais, não se falou.
A assepsia da linguagem pode desembocar num controlo cretino. Mas a manipulação do contexto não lhe fica atrás.
Isto não é um cachimbo. A propósito do caso dos sobreiros (que desde já se lamenta eticamente), levantam-se vozes que (mesmo não sendo essa a intenção) pervertem a justiça. Dizem que se aconteceu é porque o Estado tem um peso excessivo (obrigando os privados a "desenrascarem-se"). Assim, a culpa é do Estado, esse papão, e as empresas e afins, coitadinhas, mais não fazem do que tentar sobreviver. No fundo, no fundo, os políticos não protegeram o Estado, mas acautelaram os interesses do País. No fundo, a decisão estava certa e o resto é uma cambada de retrógrados e alarmistas. Ficam os interesses dos privados e o funeral do bem comum. A hipocrisia pode dar uma mãozinha à justiça, não vá ela cegar e cumprir o seu dever.
genecanhoto@hotmail.com
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