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por
Sónia correia dos santos
DN-Nuno Fox
Como é que se fala de entrevista numa entrevista?
A pergunta não é fácil... Fazendo perguntas. A entrevista está cheia de contradições. O Umberto Eco proibiu os alunos dele de usarem entrevistas com autores para autenticar pensamentos, reflexões, ensaios, com o argumento de que nas entrevistas se dizem coisas não demonstradas cientificamente. O engraçado é que ele fez essa declaração numa entrevista.
Como é que se lembrou de desenvolver este tema?
Sou de uma geração que cresceu a ouvir dizer que os jornalistas, quando se aproximam do final da carreira, deviam fazer livros de memórias. Acho que o que os jornalistas devem é fazer um legado, sobretudo às novas gerações de jornalistas, que envolva a sua experiência e sua reflexão e o seu estilo. Para mim, que abandonei o jornalismo há um ano, fazer um livro sobre a arte e a técnica de fazer entrevistas é mais importante do que um livro de memórias. Não quer dizer que não o venha a fazer.
Não se nega o interesse deste livro para os jornalistas. Mas qual é o interesse para o público em geral?
Este livro é um manual de sobrevivência para toda a gente que alguma vez na vida se decida a dar uma entrevista. Visto da perspectiva corporativista, este livro fornece muitas armas ao inimigo. É uma tentativa de ver a entrevista dos dois lados. Os destinatários deste livro são os jornalistas, de um modo geral, os estudantes de jornalismo, os professores, mas também todas as pessoas que em alguma circunstância se atrevam a fazer uma coisa que aparentemente é simples, mas que é porventura a disciplina mais complicada do jornalismo, que é dar uma entrevista.
Saber fazer uma entrevista implica um dom?
Fazer bem uma entrevista é uma arte, mas é também uma técnica. É uma arte na medida em que há coisas que remetem para o bom senso, para a cultura geral e que não estão em nenhum manual. Há todo um universo de comunicação não verbal, a maneira como as pessoas se sentam, como se vestem, que pode ser determinante para o êxito ou o fracasso da entrevista. É técnica porque o domínio que se tem da língua para a fixação do texto é fundamental, sobretudo na imprensa. Ao fixar o texto, o jornalista às vezes trai, não com má intenção, mas por inabilidade, na maior parte dos casos. O maior elogio que o entrevistado pode fazer ao entrevistador é dizer-lhe "Aquilo que lá está não foi exactamente aquilo que eu disse, mas foi rigorosamente aquilo que eu quis dizer." Parece que é fácil, mas é muito difícil, porque há pessoas que têm muita dificuldade em exprimir-se. Portanto, quando se coloca ao jornalista o desafio de fixar o texto, a técnica aqui já não chega.
Quando bem feita, é a arte maior do jornalismo?
É difícil dizer, porque também há a reportagem. Entre as duas tenho muita dificuldade, mas, do meu ponto de vista, a entrevista é mais difícil que a reportagem.
Passou a fazer entrevistas de forma diferente?
Sim, claro. Aqui há dois lados. O masoquista, que agarra um tema destes, com montanhas de livros que foi preciso ler. Estão aqui três anos de trabalho. Mas há depois um prazer imenso que é a aventura de caminhar pela história da entrevista. Alterei algumas ideias que tinha sobre vários aspectos da entrevista e hoje conheço melhor o tema. A minha intenção foi transformar a informação em saber. Não sei se há aqui saber, mas há aqui imensa informação. O desejo secreto é que quem se debruçar sobre este livro se torne, não apenas por isso, mas a partir daí, um especialista em entrevistas.
E a forma de dar entrevistas também mudou?
Dar entrevistas não é uma coisa que esteja nos meus hábitos. Este é o meu terceiro livro e é a terceira vez que sou confrontado com esta situação. Mas sinto-me bastante mais confortável no papel de entrevistador do que entrevistado.
Isso é um defeito profissional?
Talvez, porque agora tenho uma consciência maior da importância do que se diz e do que não se diz. Nós, jornalistas, não fomos educados para responder, mas para perguntar. Milan Kundera diz que "a pergunta é um exercício de poder". O que ele quer dizer é que é um abuso de poder. Quando alguém me pergunta alguma coisa está a exercer uma determinada de pressão.
Neste livro procura a solução para a problemática sobre quem é o autor da entrevista, o entrevistador ou o entrevistado. Chegou a uma conclusão?
Para mim, no que se refere à imprensa, o autor da entrevista é o jornalista. Esta tese é polémica. O meu orientador, Mário Mesquita, não a subscreve, acha que há sempre uma co-autoria. Eu acho que só há co-autoria no audiovisual. Estou bem apoiado por investigadores universitários portugueses e brasileiros, e até juristas. O Sindicato dos Jornalistas subscreve este meu ponto de vista.
Há diferenças marcantes entre a forma de fazer entrevista na imprensa ou no audiovisual?
Há um tronco comum. Há um conjunto de questões que se aplicam à entrevista seja qual for o meio. Depois há as características próprias. Por exemplo, na imprensa é preciso transformar a oralidade em escrita, o que não acontece no audiovisual.
Porque é que a entrevista falha?
Porque é repleta de perguntas abertas. Precisa de ser temperada com perguntas fechadas, que exigem respostas de sim ou não, que são um elemento essencial para o êxito da entrevista.
A entrevista é...
É uma das mais nobres e mais difíceis disciplinas do jornalismo. Pode ser também das mais esclarecedoras, do ponto de vista do direito a ser informado. Não é nenhum combate de boxe, mas também não é um exercício de promoção de imagem. Há um ponto de equilíbrio. Se as pessoas forem confrontadas com as verdadeiras questões que interessam à opinião pública e o jornalista não abrir mão dessa exigência, a entrevista pode ser muito esclarecedora. Evidentemente, o entrevistador, como um juiz de instrução, pode fazer as perguntas todas, mas não pode exigir as respostas.
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