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por
joão fonseca
"A partir de hoje dou a cara e não me importo que amanhã me apontem o dedo". Pedro Russo, 30 anos, esteve escondido até ontem sob o nome de Miguel. Agora sobe ao estrado de uma carrinha de caixa aberta transformado em palco e garante estar de "pé firme". "Nada me deitará abaixo".
"Não estás só!, não estás só!", reage a plateia de manifestantes que, concentrada no Rossio em pleno centro de Viseu, exige "stop à homofobia", luta por "direitos iguais, nem menos, nem mais!" e diz "basta de agressões". São cerca de uma centena, segundo a polícia, perto de 300, segundo os organizadores.
Miguel, que a partir desta manifestação volta a ser Pedro, é autor de três queixas na PSP por agressões de que foi vítima devido à sua orientação sexual. A ocasião serve para recordar alguns desses momentos, que aconteceram numa área de descanso do IP 5.
"Faz hoje três meses, tinha uma pistola apontada à cabeça, começaram as ameaças de morte, a minha casa começou a ser vigiada", lembra. Três meses passaram também desde que agentes da PSP se riram, perante as suas queixas. "Mas hoje não posso ter medo, não vou deixar de andar na rua". Além disso, garante "sinto-me feliz, por ter tanta gente que me apoia".
Visivelmente nervoso e emocionado agradece, mais uma vez, a quem tem estado consigo - às 14 associações de defesa dos direitos dos homossexuais, promotoras da manifestação, aos seus pais e amigos, aos colegas de trabalho. E faz um apelo aos pais, "sobretudo às mães", de Viseu "Dêem apoio, carinho, aos filhos, é muito triste viver escondido. Nós não pedimos para ser homossexuais".
Pouco antes de ter início a "manifestação histórica" contra a homofobia - promovida por 14 associações de defesa dos direitos homossexuais, entre elas a secção portuguesa da Amnistia Internacional -, participantes e curiosos cruzam-se no Rossio. Enquanto uns estendem faixas de pano ou agitam bandeiras e cartazes, outros comentam a iniciativa. "Havia de ser no tempo de Salazar... isto é uma vergonha", dispara uma mulher, que recusa identificar-se e logo se afasta.
Um pequeno grupo de homens observa, à distância, a "paneleiragem que para ali vai". É "só para ver quem são eles", diz um, justificando a sua presença no local. Mas, perante a aproximação de uma câmara da RTP, o pequeno grupo reage para impedir de ser filmado, chegando mesmo a esboçar agressões aos repórteres. A polícia aparece e tudo serena. E ouvem-se vozes de censura "querem saber quem são os larilas, mas não têm coragem de se mostrar".
"Cada um é como cada qual, isto é um país livre desde o 25 de Abril", sentencia João Ferreira, que ali passa "por acaso". João Pereira, também por acaso, não é "a favor nem contra, cada um é como é". Quanto à sua presença na praça de Viseu àquela hora, é por ser frequentador habitual. "Já ando no Rossio desde que era aluno da Escola Industrial, há mais de 60 anos, meu amigo", esclarece, para que não fiquem dúvidas.
Representantes das associações organizadoras e apoiantes da concentração usam da palavra, sempre no mesmo sentido contra a homofobia e todo o tipo de discriminação e a favor da tolerância. Outros não falam, mas afirmam a sua solidariedade com a sua presença (casos, por exemplo, dos representantes do PS, JS, BE e PCP).
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