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editorial

Cavaco, o candidato de Sócrates

por

miguel coutinho  

A ntónio Guterres. António Vitorino. Jaime Gama. Nenhum deles quer ser o candidato socialista a Belém. Mário Soares talvez queira mas não deve a sua candidatura significaria uma revisitação do passado que não ficaria bem ao próprio nem ao PS. Quem mais senão Manuel Alegre poderá correr, em nome do PS, para Belém? Outros nomes existirão, mas nenhum reúne, de forma tão inequívoca, três requisitos: ter um passado e um presente de dignidade e combate político pela liberdade; fazer o pleno à esquerda; e não comprometer o seu prestígio e a sua ambição com uma derrota.

Dir-se-á que o poeta Manuel Alegre não representa o PS moderno e pragmático de José Sócrates - é verdade ele não teria as dúvidas do actual primeiro-ministro sobre a realização do referendo ao aborto ou sobre a necessidade de rever o Código do Trabalho.

Manuel Alegre não deixou de ser o socialista que era na década de 70, de 80 ou de 90. Ele é o mesmo, os seus valores não se alteraram. E essa coerência - ainda que discutível no conteúdo - deve ser enaltecida num tempo em que a política se presta frequentemente a contas de mercearia. Não deixaria de ser irónico que o PS ideológico - que tem, ainda, rasto no Governo com a convicção de Vieira da Silva e as derivas, só admissíveis pela volúpia de protagonismo, de Correia de Campos - fizesse as despesas de uma candidatura presidencial. Esse acto - que à partida parece destinado ao fracasso - transportaria para as presidenciais um debate estimulante que tem andado arredado das eleições. Mas há outra ironia numa eventual candidatura de Alegre. José Sócrates está mais próximo, no pragmatismo e na ideologia, de Cavaco Silva do que de Manuel Alegre. Com quem teria José Sócrates uma coexistência pacífica? A quem poderia pedir conselhos e com quem poderia delinear uma estratégia comum em matéria económica? A resposta é óbvia Cavaco Silva.

A moral da história não deixa, também, de ser curioso não é necessário que o Presidente da República e o primeiro- -ministro sejam do mesmo partido para que os ovos estejam no mesmo cesto. Com Cavaco Silva em Belém e José Sócrates em São Bento, poderá haver apenas um cesto. Com Alegre, não há dúvida: teremos os ovos distribuídos por dois cestos.


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