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José Mário Silva
Após o grande boom da blogosfera portuguesa, em meados de 2003, verificou-se um curioso fenómeno editorial a publicação em papel de alguns dos blogues de maior sucesso. A Oficina do Livro, por exemplo, converteu o diário de um libertino (O Meu Pipi) em best-seller, apostando depois no Barnabé - provavelmente o melhor blogue político português. E até a circunspecta Cotovia decidiu acolher, no elegante volume Fora do Mundo, as prosas internéticas de Pedro Mexia.
Entretanto, o entusiasmo mediático em torno desta nova forma de comunicar arrefeceu e com ele o interesse das editoras. É por isso de saudar o aparecimento de um projecto que pretende justamente divulgar autores revelados na Internet a Leiturascom.net, dirigida pelo jornalista Paulo Querido (pai da plataforma weblog.com.pt).
A estreia, com o lançamento do primeiro volume das mil e uma pequenas histórias de Luís Ene, é bastante simbólica. Por um lado, porque esta empreitada ficcional ambiciosa (a criação de mais de 1000 microcontos, a um ritmo quase diário) é uma das páginas mais antigas da nossa blogosfera. Depois, porque representa um dos raros casos em que é a escrita que se adequa ao meio digital (e não o contrário).
De certa forma, Luís Ene impôs a si mesmo um trabalho digno de Xerazade. Inventar histórias, umas atrás das outras, como se desse fluxo narrativo constante dependesse a sua sobrevivência. Ou seja, a obrigatoriedade de escrever funciona como a espada de Dâmocles do criador, mas também como a sua estrada de Damasco é ao mesmo tempo o lugar da ameaça e o da revelação.
Nesta colectânea necessariamente heterogénea e desigual - visto que Ene recuperou na íntegra os primeiros 213 dos cerca de 900 fragmentos que foram publicados online desde 20 de Agosto de 2002 (sem eliminar os piores ou sequer corrigir os menos bons) -, um dos aspectos mais interessantes é a forma como assistimos ao crescimento do escritor, à sua evolução técnica, tanto ao nível da consistência narrativa como do rigor estilístico.
No espaço diminuto de uma página, ou nem isso (a maior parte dos contos tem menos de 100 palavras), encontramos de tudo. Crimes, amores, vinganças, fugas, redenções. Mas também parábolas, miniaturas zen, exercícios de estilo ou de sarcasmo e muitas fábulas (com moral entre parêntesis). Às boas ideias, porém, falta por vezes espessura. E a ausência de um crivo deixou passar historietas irrelevantes. Em suma aqui e ali pode sentir-se a sombra de Mário-Henrique Leiria, mas nunca a de Gonçalo M. Tavares (o grande cultor deste género breve em Portugal, hoje).
Além da morte e dos paradoxos sobre a identidade, o tema principal deste livro é o próprio acto de narrar "A ficção é uma coisa sem controlo. É como mentir. Começa--se (...) e sabe-se lá onde se vai parar." Luís Ene só parará, estamos certos, muito depois de alcançar a sua utópica meta das 1001 histórias.
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