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"Maricón" em Guadarrama

 

O café-restaurante Briscas, no centro de Rascafría, uma pequena localidade da serra de Guadarrama, situada a pouco mais de 90 quilómetros de Madrid, parecia prometedor. As pessoas não paravam de entrar e de sair, mostrando que aquele era o centro da vila.

Puro engano, como se podia comprovar por uma placa, colocada em lugar de destaque, no meio das frases já habituais que explicam que o dono do estabelecimento não está ali para fiar aos clientes. "Hace um dia precioso. Verás como viene alguno y lo jode."

São assim os serranos. Frios, fechados e desconfiados, como explicaria, depois, um madrileno, já reformado, que se instalou em Rascafría, com a mulher, deixando para trás dois filhos já adultos. "Se as pessoas, por aqui, nem quase dão os bons-dias, como é que querem que eles falem com desconhecidos?"

O certo é que o madrileno foi a única pessoa que se disponibilizou para falar sobre a legalização do casamento entre homosssexuais ao longo do percurso efectuado pela serra de Guadarrama.

Os outros, mal percebiam o tema de conversa, fugiam. Especialmente os mais idosos. Um pouco à semelhança do que ocorreu no muito conservador bairro madrileno de Salamanca. Mas, pelo sim pelo não, ainda deixavam escapar "Aqui não há disso. Aqui não há maricónes, nem queremos saber dessas coisas."

Salvou-se o madrileno. Mas só até um certo ponto. Quando lhe perguntámos o nome, transformou-se num serrano. "Porque é que querem saber? Depois isso sai no jornal, isso não."

Salvou-se a conversa. Que, curiosamente, começara com um tom de uma certa indiferença. "Para mim, tanto faz. E, além disso, a lei também já foi aprovada."

Pura aparência. Mais uns minutos de conversa e a língua soltou-se. Afinal, o tão falado casamento entre homossexuais já não lhe era assim tão indiferente. "Dois homens juntos? Duas mulheres? Que sentido é que isso faz? E se houver filhos, ou se os adoptarem, o que é que eles serão? Gays? Lésbicas? Não, isso não me parece nada bem."

Mais difícil, bem mais difícil, será assistir a um casamento homossexual no Ayuntamiento de Rascafría. Pelo menos pelos tempos mais próximos.

"As pessoas não o permitiriam", diz, dando algum razão a quem pensa que a esmagadora maioria destes matrimónios acabará por se celebrar em cidades grandes como Madrid ou Barcelona, mas não em terras mais pequenas. Designadamente as da Galiza, Andaluzia, Estremadura ou País Basco.

"Aqui, em Rascafría, se algum maricón se atrevesse a casar, ou sequer a tentar, era capaz de acabar pendurado numa árvore. Isto é uma terra pequena, com pessoas muito tranquilas, onde todos se conhecem."


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