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por
susana pinheiro
braga
DN-Ursula Zangger
Quais são as políticas sociais que gostaria que o Governo desenvolvesse pelos mais necessitados e para combater a vaga de desemprego que assola o País?
Gostava que todo o cidadão tivesse igualdade de oportunidades, podendo trabalhar para ter uma vida digna. O que passa por uma habitação, pois há casas muito degradadas e pessoas que vivem em situações quase de miséria e de abandono. Parece-me que há muito caminho ainda a percorrer, assim como nos cuidados essenciais da saúde.
E…
Também devemos criar idênticas condições no campo da educação. Sabemos que os filhos das classes um pouco mais poderosas têm outras condições de estudo e de acompanhamento que os mais pobres não têm. Indispensável é um tratamento diferente da natureza. E temos esta potencialidade do turismo, como o gastronómico e o religioso, que é um campo onde Portugal se poderá impor e encontrar trabalho para muita gente.
Com este novo Governo surge um segundo referendo ao aborto no País. Qual é a posição da CEP?
Não falo da CEP, pois ainda não decidimos nada. Mas acho que a vida é um dom desde a concepção até à morte natural. Não é pelo facto de se fazer um referendo que vamos legitimar o aborto. A Igreja defenderá sempre o direito à vida de todos e particularmente dos mais inocentes. Evidentemente que se empenhará no acompanhamento das mulheres que muitas vezes são exploradas. Também se deveria pensar na responsabilidade masculina. Há todo um conjunto de políticas de índole social que deveriam ser estipuladas.
A Igreja irá diligenciar no sentido de implementar uma campanha a favor do direito à vida por altura do referendo? Ou não se manifestará publicamente?
Se chegarmos ao referendo, creio que estimularemos os nossos cristãos a votarem de harmonia com a sua consciência cristã. Muitos cristãos conseguem reflectir, penetrar em tudo quanto a ciência diz em relação ao mistério da vida e comunicar essa doutrina, e são esses que se devem empenhar em primeiro lugar na defesa da vida e na exigência de políticas que a protejam. Se chegarmos à conclusão que deveremos, como Igreja, assumir qualquer atitude ou posição pública, fá-lo-emos, mas não serei eu, tem de ser uma decisão pelo menos do Conselho Permanente. Depois o que eu disser, será sempre a título pessoal.
A Igreja poderá, nalguma circunstância, considerar uma ou outra excepção na interrupção voluntária da gravidez? Refiro-me, por exemplo, a quando estiver em causa a vida da futura mãe.
Não. A Igreja defenderá sempre a vida dentro de processos naturais.
E em relação à pílula do dia seguinte, qual é a posição da Igreja?
A mesma coisa. Tenho pena que pensem que o cristianismo é uma questão de normas e de proibições. Se há outras religiões que são de preceitos e de proibições, o cristianismo é uma vida na sua globalidade. A posição da Igreja é clara e inequívoca. Não pensem que vou dizer o contrário. Tudo quanto possa significar directa ou indirectamente aborto, a Igreja não concorda. Está provado que essa pílula é abortiva.
O Congresso espanhol aprovou recentemente a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Receia que o mesmo suceda em Portugal? E como é que a Igreja encara esta realidade?
Penso não recear, porque Portugal, em termos de mentalidade comum, conseguirá respeitar quem viva nessa situação. Agora considerar como uma família ou então com certos artifícios da linguagem como o Governo espanhol fez, nunca chegaremos aí. Se chegarmos, teremos que denunciar essa política, dizendo que a família é algo de muito natural e complementar. Muito mais ainda em relação à adopção. Ninguém ignora, com um mínimo de senso comum, que uma criança precisa de crescer, como que amparada e apoiada pela psicologia masculina e feminina do pai e da mãe.
Se for discutido em Portugal, a Igreja vai-se opor?
Provavelmente manifesta-se. Mas aquilo que faz falta é que não se veja na Igreja um adversário, mas que se conceda o direito de se expressar de maneira a que os cristãos sigam essa doutrina. Porventura, uma doutrina diferente, que não é da moda.
Acha que as pessoas se afastam cada vez mais da Igreja?
Se olharmos para os números em termos de prática religiosa, hoje são menos as pessoas que frequentam os templos. Mas verificamos que em Portugal há uma sede muito grande de Deus. Acho que muita gente opta por uma maior consciência na vida.
O celibato eclesiástico não estará a afastar os fiéis e a diminuir o número de párocos no País? Acha que seria diferente se o casamento fosse permitido?
Sabemos que o celibato é uma lei disciplinar que porventura poderá deixar de existir. Mas estou convencido de que a vida celibatária permite uma maior disponibilidade para servir e viver a missão que é confiada aos sacerdotes e aos padres. Não me parece que o facto de as pessoas poderem casar vá aumentar o número de vocações que é o chamamento de Deus que as pessoas acolhem dentro de si.
O que pensa acerca das mulheres serem ordenadas no seio da Igreja a que pertencem?
É um estudo a continuar. Estou convencido de que não será assunto a merecer grande alteração. Até porque acho que a espécie humana é feita em termos de complementaridade, cada um tem a sua função à mulher toca-lhe a maternidade no sentido específico da palavra que mais ninguém ocupa esse espaço. Também dentro da Igreja a mulher tem hoje um campo de acção enorme.
Como é que o pensamento "conservador" de Bento XVI pode influenciar o percurso da Igreja?
A classificação de conservador está ultrapassada. A opinião pública já está a restituir-lhe aquela competência teológica, intelectual e até de um pensador de vanguarda. Desempenhou uma tarefa na Igreja muito delicada, de charneira, de resposta aos problemas mais polémicos e mais difíceis. Fui ouvindo as diversas sensibilidades e vendo o acolhimento que lhe foi prestado. Se há alguém que conhece todos os problemas com que a Igreja se debate, direi que é ele.
Acha que vai seguir a filosofia de João Paulo II e apostar ao nível ecuménico?
Cada Papa tem a sua originalidade e este é o Bento XVI e não o João Paulo II. Estou convencido de que será um Papa que aliará a sua inteligência à dimensão colegial, ouvindo os bispos e leigos.
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