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Velocidade ainda + furiosa

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Jorge Alves BarataA curva aproxima-se, o ponteiro do conta-rotações sobe até muito perto da red-line e a visão periférica alerta-nos para a presença de dois carros, lado a lado, procurando ganhar a posição. É preciso decidir muito depressa, ganhar uma trajectória e procurar sair na melhor situação.  

Eis uma aposta perdida para quem, habitualmente, não costuma rodar em circuito e não pontua para o campeonato. À distância, até podemos pensar no desafio que nos foi lançado, no sentido de viver, por dentro, a primeira prova da Vodafone Cup by Seat e na perspectiva de poder defrontar pilotos consagrados - sem ilusões, no que respeita à classificação final - assumindo a experiência como parte de um curso de pilotagem e mesmo como um desafio pessoal. No entanto, encerrados no cockpit do Seat Leon Cupra, bem "amarrados" à baquet , com o capacete a bater no arco de segurança, e o traçado a obrigar a constantes passagens de caixa e a calcular as melhores abordagens possíveis a cada ponto de travagem, pouco "espaço" sobra para qualquer pensamento adicional.

Afastado de qualquer possível discussão por um lugar honroso, ao piloto neófito restam apenas questões mais simples relacionadas com a "sobrevivência". Ou seja, procurar atrasar-se o mínimo possível, melhorar os tempos por volta, evoluir nas trajectórias e... não borrar a pintura acabando encostado a um rail no eixo de uma qualquer escapatória.

A "operação" não deixa de se cumprir por uma sequência lógica. No histórico circuito espanhol de Jarama - que em breve será demolido e substituído por um outro autódromo, nas imediações da capital espanhola - onde se iniciou este campeonato "nacional" (embora conte também com equipas do país vizinho), o "trabalho" normal a qualquer categoria, integrada no programa de um fim-de-semana de Velocidade começou com os treinos. No nosso caso, desconhecendo o carro e o circuito, essa fase revestia-se de maior importância ainda, além de determinar um lugar na grelha, tanto para a prova de Sprint, como para a de Endurance, as duas corridas que integram cada etapa da Vodafone Cup. A de Sprint decorre ao sábado e a de Endurance, ao domingo, com a motivação extra de obrigar a mudança de pilotos (as equipas são constituídas por dois ou três pilotos). Os 50 minutos de treinos acabam, pois, por se revelar muito curtos, principalmente quando, relativamente ao caso da nossa equipa "Vodafone 2", nenhum dos elementos tivera qualquer contacto com o carro ou com o circuito.

O Leon Cupra mostrou temperamento logo nas primeiras voltas. Muito fácil de conduzir, colocando os 225 cv de potência no asfalto de forma voluntariosa (mas obrigando a manter um regime próximo das 6000 rpm para se aproveitar melhor todas as suas características), com pneus slicks Michelin montados em jantes de 18 polegadas a garantir uma impecável "grip" em curva, caixa de seis velocidades fácil de manusear... tudo isto deixava bem claro que, neste tipo de corridas, não é pela diferença mecânica que um piloto se pode superiorizar a um adversário. O pormenor mais importante para se aproveitar, ao máximo, as capacidades do carro é a memorização do percurso. E Jarama ostenta, de facto, um traçado muito técnico. Curvas que parecem lentas, após uma primeira volta, revelam-se rápidas numa segunda abordagem e pontos de travagem aparentemente complicados acabam por merecer apenas um "cheirinho", depois de algumas passagens.

Cumpridos os treinos, ainda com poucas dúvidas desfeitas, a corrida encarregar-se-á de confirmar a nossa inexperiência, mas com mais algumas notas a acrescentar a esta sessão de aprendizagem. Primeiro, de uma pista limpa passamos para um asfalto polvilhado com a borracha deixada pelas cinco sessões de treinos anteriores, modificando o cenário. Se, por um lado, são inúmeras as partículas que colidem com o pára-brisas do Leon, por outro, a aderência aumentou consideravelmente a partir do momento em que os pneus atingiram a temperatura de funcionamento. A adrenalina toma conta do pelotão e a luta pela liderança gera uma onda de pequenos toques, obrigando à entrada em pista do safety-car. A ausência de cerimónia reflecte apenas o que se passa em qualquer corrida a delicadeza fica na box, porque no momento da ultrapassagem não há meio termo.

Quando pensamos que tudo está controlado e a passagem pela meta se sucederá, sempre do mesmo modo, até ao final, verificamos que o próprio desgaste dos pneus vai obrigando a adaptarmos o andamento ao modo como o carro desliza.

A bandeirada de xadrez dá, finalmente, o sinal para a diminuição da descarga de adrenalina e consequente retoma da actividade cerebral, antes concentrada apenas na pista. Não deveríamos ter falhado aquela passagem de caixa, a curva dois poderia ter sido feita muito mais depressa se tivéssemos corrigido aquela trajectória "teimosa", etc. etc... Damo-nos conta que estamos "encharcados" dentro do fato e sob o capacete. Fica a sensação que poderemos evoluir muito mais e baixar consideravelmente os tempos, mas fica também a certeza que há quem tenha nascido para isto, o que, temporariamente, nos deixa "furiosos". Nada que não se ultrapasse relendo o Michel Vaillant, ou revendo o "Le Mans".


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