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elsa costa e silva
As mutilações auto-infligidas em raparigas jovens são uma realidade cada vez mais presente no mundo ocidental. O sociólogo francês David Le Breton, através de numerosos trabalhos com jovens, fala num "imenso sofrimento" da juventude actual. Comportamentos de risco, que até põem em causa a vida de terceiros, ou formas de resistência, como a bulímia e anorexia, são as consequências de um mundo "pouco hospitaleiro e agressivo". Mas, marcar o corpo, com piercings e tatuagens, pode levar os jovens a encontrar o equilíbrio e a evitar comportamentos de risco.
O livro mais recente deste sociólogo - que participa hoje num colóquio em Braga (ver caixa) - aborda as questões das mutilações auto-infligidas. Recusa, contudo, que esta realidade seja abordada a partir da psiquiatria ou da medicação, que podem cristalizar no tempo o problema. "Raramente dura mais do que dois ou três anos. É preciso acompanhar e, se possível, recorrer a um psicoterapeuta, mas nunca internar", explica.
Há jovens que se automutilam. E esta realidade "está a aumentar enormemente", podendo resultar de uma "contestação inconsciente" a uma ideologia do corpo que é imposta pela sociedade contemporânea "A mulher vale o que o seu corpo vale, o homem vale pelo que faz no seu trabalho." A ditadura da aparência leva ainda a outras situações, distúrbios alimentares.
Para o sociólogo, professor na Universidade de Estrasburgo, estes sinais são de uma "juventude que sofre". As estatísticas não enganam tem aumentando o número de fugas, suicídios e mortes nas estradas. As razões passam pela percepção de um mundo "injusto e agressivo" e pela dificuldade de transmissão entre gerações, e pela ausência, por vezes, de valores a passar.
Aqui pode residir, também, a explicação pela "obsessão das marcas comerciais nos recreios da escola". Com uns "ténis ou uma t-shirt" reconhecidos internacional ou piercing, o adolescente "possui as marcas de identificação que lhe permite existir no olhar dos pares" e quem não as tem, "é martirizado nos recreios escolares".
Em França, assinala, quase todas as adolescentes têm um piercing no umbigo e um golfinho tatuado nas costas. Quem não tem estas marcas é apelidada de conservadora ou retrógrada. Mas não há que dramatizar. David Le Breton acalmou já muitos pais furar a língua não quer dizer que a filha ou filho vá ser marginal. "Para os jovens, marcar o corpo é uma forma de apropriação e autonomização face aos pais. De distinguir o corpo actual daquele que receberam". É assim que este sociólogo vê com corpo como "um objecto de debate nas famílias ocidentais", onde os pais vêm o corpo dos filhos quase como uma extensão própria. E, por isso, reagem à intenção do piercing, exigindo "Não me faças isso".
E mais importante nos inquéritos que realizou, David Le Breton verificou que este comportamento é mesmo " preventivo de atitudes de risco". Assim se posicionam os jovens face à sociedade. "Tocar o piercing ou a tatuagem é mesmo uma forma de se fixar uma referência, de encontrar limites", explica. Os jovens em risco "nunca enquadrados, não sabem para onde vão, quem são ou que limites têm". O caminho é o abismo e, muitas vezes, levam outros para a queda.
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