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por
fernando madaíl
O "non" das sondagens gaulesas, que está a assustar a Europa, vai marcar as intervenções da visita de Estado de Jorge Sampaio a França, que não hesitou em sublinhar, mesmo no banquete ontem oferecido por Jacques Chirac no Eliseu, que, "no processo de ratificação da Constituição, joga-se o nosso futuro colectivo". Repetindo no discurso o sentido do título da entrevista ao Le Fígaro ("Sampaio La France doit rester l'un des pilotes de l'UE") - que teria chamada na capa do jornal -, o Presidente afirmou que, no projecto de construção europeia, "a França tem - e terá sempre - um papel insubstituível a desempenhar".
Não terá sido mera simpatia do estadista que reconhece que a influência francófona entre nós "foi tão forte que, às vezes por afinidade, outras por reacção, contribuiu para moldar a nossa própria identidade". Na conferência de Imprensa ao final da tarde, Sampaio aproveitava para demonstrar que o paralelo que estabelece entre os referendos nos dois países não é apenas uma forma elegante para não ser acusado de se imiscuir nos assuntos internos do hexágono. Afinal, o "cartel" do "non" não se limita apenas aos comunistas e trotsquistas, à extrema-direita e aos soberanistas, mas divide de tal forma o próprio PS que, ontem, o Libération levantava a hipótese da polémica entre os socialistas franceses que são "pró" e "anti" Constituição estar a fazer nascer o "espectro de uma implosão" daquele partido centenário.
Coerente com o que tem afirmado, "em nove anos e dois meses de mandato", Jorge Sampaio manifesta-se como "um partidário do sim", entendendo que "o Tratado Constitucional é uma avanço em relação ao Tratado de Nice e ao (fundador) Tratado de Roma". Ainda por cima quando o documento consagra o princípio da igualdade dos Estados e a Carta dos Direitos Fundamentais, criando "condições um pouco melhores" para o desenvolvimento do modelo social europeu. Nesta matéria, de resto, foi absolutamente claro sobre o que pretende fazer quando houver campanha em Portugal "Perante um tema de tanta influência e de tanta importância" para o país, "não posso estar silencioso". O desafio é tão crucial que o PR "não pode estar distraído, ficar em casa, olhar para o tecto".
E como uma visita de Estado tem uma dignidade diplomática muito superior à das visitas oficiais (a anterior tinha sido de Mário Soares, em 1989)- como se podia comprovar pela vasta galeria de fardas militares que prestavam a guarda de honra à chegada ao aeroporto, executando a Marselhesa e a Portuguesa, ou pela pompa da comitiva com charanga da guarda republicana a cavalo que subia os Campos Elísios enfeitados com gigantescas bandeiras de Portugal e de França -, Sampaio aproveitou para, no jantar no Eliseu, depois de admitir que existe um crescente interesse pela cultura portuguesa em França - dando os exemplos de Lobo Antunes (que acabou por não integrar a comitiva) e Saramago, Pessoa e Oliveira, Vieira da Silva e Pomar , Amália e Emanuel Nunes -, dizer a Chirac que "pretendemos agora alargar esse interesse à língua portuguesa", falada por cerca de 200 milhões de pessoas, nos vários continentes, sendo actualmente "uma grande língua de comunicação internacional". No encontro durante a tarde, revelaria Sampaio aos jornalistas, o chefe de Estado francês terá manifestado disponibilidade para aumentar a oferta do português como língua estrangeira de opção. Mas Sampaio considera que esta acção em França deve ser apenas parte de uma estratégia global em relação à projecção internacional do idioma, "essa grande riqueza nacional, que tem de ser cuidadosamente acarinhada".
Além de se debruçarem sobre a situação que antecede as eleições presidenciais na Guiné-Bissau, com os dois presidentes a concordarem na necessidade de "utilizar os bons-ofícios" diplomáticos para que se volte a uma via democrática, dialogaram sobre outro tema europeu de importância vital para Portugal. No encontro entre ambos, Sampaio registou a compreensão da França face ao caso específico de Portugal no dossier sobre as novas perspectivas financeiras uma solução global, mas equilibrada, que garanta as verbas necessárias para as reformas estruturais dos novos membros e, simultaneamente, não corte no fundo de coesão indispensável para certas regiões tenderem para a convergência com os países mais desenvolvidos.
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