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Podem os provedores salvar o jornalismo de si mesmo? O título foi proposto por Jeffrey Dvor- kin, provedor da National Public Radio para um debate realizado na semana passada na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) (*). A enunciação do tema pressupõe a existência de derivas no jornalismo. Sugere ainda a enunciação de uma capacidade de intervenção dos provedores susceptível de trazer para o bom caminho os desmandos que se cometem no dia-a-dia em nome do jornalismo. Será isto verdade?
É preciso sublinhar que os provedores são pouco numerosos. Actualmente, em Portugal, nos jornais generalistas, só existem dois provedores, o deste jornal e o do Jornal de Notícias. Há um provedor de um jornal digital, o Setúbal na Rede e o Record mantém o cargo de que foi iniciador. Nos EUA existem cerca de 60 provedores para um universo de milhares de unidades de informação listadas pelo Kidon Media Link (http//www.kidon. com/). Apenas alguns órgãos de referência consideram essencial criar esta instância de reflexão. Essa decisão atribui simultaneamente alguma coerência de sentido à intervenção dos leitores na vida dos órgãos que os adoptam e à reflexão sobre o jornalismo que se pratica, nas páginas da imprensa, nas rádios e nas televisões que escolhem ter provedores. Este número restrito não quer dizer que a influência dos provedores se limite aos órgãos em que estes exercem mandato. Jeffrey Dvorkin, com a visão alargada que a presidência da Organization of News Ombudsmen (ONO) lhe proporciona, sustenta que a comunidade jornalística de cada país está muita atenta ao que os provedores escrevem. Tenho alguns sinais que algo de semelhante se passa em Portugal.
Em segundo lugar a influência do provedor, como José Pacheco Pereira sublinhou no referido debate, é apenas uma influência de autoridade. Um provedor, felizmente, não pode estabelecer ou fazer cumprir uma sanção em relação ao seu jornal ou a um jornalista. Como José Pacheco Pereira defendeu, os mecanismos sancionatórios são imprescindíveis pois os jornalistas e as empresas não estão acima da lei. Não há nenhuma profissão no mundo que balize bem os seus caminhos apenas pela auto--regulação. Esta é imprescindível, pois é um caminho de consciencialização colectiva de que não se pode fazer economia. Mas é insuficiente, como é reconhecido amiúde.
Em terceiro lugar os jornalistas foram caracterizados por Dvorkin como "muito defensivos quanto às críticas e pouco dados a que lhes questionem o trabalho" (JN, 9 de Abril). A minha experiência, ainda curta, não me permitiu coligir dados significativos em sentido oposto, embora tenha encontrado jornalistas que aceitam bem a crítica.
Na abertura da conferência, Rui Machete, presidente da FLAD, referiu que "o provedor não substitui o poder judicial, mas garante alguma protecção nos direitos dos cidadãos" (JN, idem). Terá Rui Machete razão? Em parte sim. Apesar de defender uma "visão modesta do papel do provedor" (crónica de 03- -01-05), não posso deixar de reconhecer que alguns jornalistas indiciam preferir não ser alvo das observações críticas dos leitores. Posso também arriscar que a mediação é uma instância pouco simpática para alguns jornalistas, habituados a serem decisores últimos do que se publica. A queixa dos leitores, a sua interpelação e a palavra do provedor deslocam a sua centralidade para a periferia, o que não pode agradar a todos.
Mas essa intervenção passa pelo reforço da dimensão de cidadania que os leitores ganham nos órgãos de comunicação com provedor. A existência deste coloca os leitores como co-actores na "construção" da prática jornalística ou, pelo menos, agentes da sua avaliação. Cada leitor torna-se um potencial crítico, uma fonte possível de novas informações, um "juiz" ético e deontológico de uma profissão com controlos insuficientes. E essa dimensão é nova, talvez mesmo mais difícil de gerir numa profissão que se define publicamente como dialogante. Em todo o caso "ouvir é fundamental", como reconheceu Marie Laure Augry (citada por Paula Mourato, no DN de ontem). A "mediadora" francesa insistiu nesta dimensão de cidadania, afirmando que os telespectadores não são apenas números nas audiências, pois também têm algo para dizer. Para que tal ganhe coerência é preciso quem ouça, quem organize e quem dê sentido.
Estamos provavelmente numa viragem para a provedoria dos media em Portugal, pois a rádio e a televisão vão talvez juntar-se à imprensa escrita, adoptando a figura do ombudsman no sector do audiovisual. Os modelos não são muitos. mas em Portugal já existiu um, na TVI, no início da sua actividade. Sousa Franco recebia correio dos leitores e a ele respondia, para além de ter outras atribuições. Outros casos que se podem olhar são La Maison de Radio-Canada, a National Public Radio nos EUA, a France Télévisions, em França, a TV Cultura no Brasil. Na France Télévisions há dois provedores da Redacção (France 2 e France 3) e há um provedor de programas. Os primeiros respondem às queixas e reflectem sobre a informação, o segundo sobre o equilíbrio da programação. No caso dos provedores de Informação tem sido tradição, na estação francesa, manter um programa em antena. Actualmente, La Maison de Radio-Canada dá apenas resposta a correio e resolução de conflitos.
(*) Na discussão participaram ainda João Barreiros, director de Informação da RDP, José Pacheco Pereira e Marie Laure Augry, 'médiatrice' de France 3, uma das estações de serviço público francesas. O debate foi organizado pelo CIMJ, com apoio da FLAD, do Cenjor, da Rádio e Televisão de Portugal e do Institut Franco-Portugais.
A mediação é pouco simpática para jorna-listas habituados a de-cidir o que se publica
Provedor dos leitores
José Carlos
Abrantes
e-mail provedor2004@dn.pt
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