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Njoão
césar
das neves
estes dias muito se fala do Papa peregrino, ecuménico, reformador, do Papa dos jovens, dos pobres, da vida. Mas, além de tudo isso, a morte de João Paulo II marca o termo do concílio Vaticano II. O seu imponente pontificado consistiu apenas na encarnação, institucionalização, normalização e plenitude desse ensinamento. Dentro de dias começará para a Igreja Católica a era pós-concílio. O próximo Papa, o primeiro do último meio- -século que não foi padre conciliar, lançará a nova fase da Igreja.
A situação dos cristãos em meados do século XX era muito difícil. O problema não vinha das perseguições e perda de fiéis, pois o "pequenino rebanho" (Lc 12, 32) vivia habituado a isso. A dificuldade estava em, desta vez, a Igreja se sentir culpada por essas circunstâncias. Por isso estava desanimada, complexada, à defesa.
Esta não era a primeira vez que o fenómeno existia. Era a segunda. No século XVI viveu-se um forte ataque de cristãos fervorosos contra o que consideravam a imoralidade, abusos e perversão eclesiais. O resultado foi a terrível Reforma, que dividiu dolorosamente a Igreja e a Europa por 200 anos. Desta segunda vez as acusações não eram tão graves. Não se tratava de corrupção moral ou vícios institucionais, mas de desadequação da linguagem e métodos aos tempos modernos. A casa estava bem funda- da; só precisava abrir as janelas.
Nos dois casos, a solução foi conciliar. O século XVI viu o grandioso concílio de Trento (1545-1563), aplicado por um santo, São Pio V (Papa de 1566-1572), inverter a situação. "Em 1590 cerca de metade da massa terrestre europeia estava sob o controlo de Governos protestantes e/ou da cultura protestante; em 1690 o número era apenas cerca de um quinto." (MacCulloch, D. Reformation, Penguin Books, Londres, 2003, p.669). Quatro séculos depois, o concílio Vaticano II (1962-1965) realizou uma reforma equivalente aplicada por quatro santos João, Paulo e João Paulo.
O impulso apostólico e pastoral de João Paulo II mudou completamente o estado de espírito, atitude e ânimo dos fiéis. O Papa deixa uma Igreja jovem e ordenada, empenhada, alegre e confiante. Com a doutrina esclarecida no catecismo (1992), alimentada pelo jubileu (2000), pelo rosário (2003), pela eucaristia (2005), vive num mundo consagrado ao Imaculado Coração de Maria (1984). A receita vinha do primeiro momento "Não tenhais medo! Abri, mais, escancarai as portas a Cristo! Abri ao seu poder salvador as portas dos Estados, dos sistemas económicos e políticos, dos extensos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento" (homilia na inauguração do pontificado, 22 de Outubro de 1978).
Hoje ninguém pode negar a enorme transformação do Vaticano II, semelhante à de Trento. Mas, por muito que se mude, ainda há quem queira mais. A História repete-se os críticos do Papa pretendem alterações que transformariam a Igreja Católica numa seita protestante. Isto não é insulto, mas mera constatação. Com todo o respeito, nota-se que os propósitos dos opositores (descentralização papal e fim da cúria, casamento de padres e ordenação de mulheres, liberdade para aborto, homossexualidade, divórcio, preservativo, etc.) são aspectos que distinguem as comunidades protestantes e, com os avanços do diálogo ecuménico, quase os únicos que as distinguem.
Os críticos chamam aos fiéis "tradicionalistas" e "conservadores". Bem podiam chamar-lhes "católicos" e a si próprios "protestantes".
As tarefas do novo Papa são gigantescas. A descristianização e decadência europeias, a crise de vocações no Ocidente, o desafio gnóstico e esotérico, a evangelização das potências nascentes China, Índia, Islão, os dramas sociais nas católicas América Latina e África, a luta pela vida e família, etc. São problemas que se podem dizer impossíveis de resolver. Como sempre, a Igreja não tem capacidade humana de subsistir. Só a presença do Espírito Santo dá vida ao corpo místico de Jesus Cristo, que conta agora com a poderosa intercessão de São João Paulo Magno.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
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