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Àjoão
cravinho
direita, algo de novo a direita liberal posiciona-se na rampa de lançamento da sua agenda política como projecto de poder. Convirá acompanhar os caminhos por que procura romper. É que este projecto podia influenciar decisivamente a governação do País, não tanto directamente, mas pela deslocação permissiva de outras correntes políticas.
A direita liberal enfrenta sério handicap histórico. A nossa Revolução Liberal não criou um solo fértil para a irradiação do pensamento liberal. As suas debilidades, reproduzidas por sucessivos quadros temporais, culminaram na ditadura e prolongaram-se até ao nosso tempo. A sociedade portuguesa revelou-se hostil à consolidação de um pensamento liberal capaz de pesar duradouramente no País. E a direita liberal assim continuaria espécie exótica adiada, não fossem os brutais choques externos que ameaçam fazer implodir o passado que foi sobrevivendo na sociedade portuguesa, cega aos riscos da nova concorrência global. No plano económico e social o amanhã será de certeza muito diferente. Por maioria de razões, não terá também de o ser no plano político? É neste contexto que a direita liberal vê a sua janela de oportunidade. Pensando que em breve se tornará evidente que só ela tem as respostas certas para dar futuro aos portugueses no mundo globalizado. Mas o que é evidente para intelectuais e quadros cosmopolitas bem instalados na vida nem sempre é sufragado eleitoralmente pelos familiarizados e desesperados com os problemas da sobrevivência quotidiana. O que inviabiliza praticamente o combate a peito descoberto. Logo, será preciso embrulhar a agenda liberal em imbróglio partidário muito mais abrangente, para criar a possibilidade de a desembrulhar a seu tempo em termos de acção governativa. Por outras palavras, trata-se de fazer o takeover ideológico de um partido de Governo a partir de centros de poder capazes de fazer acontecer novas realidades no plano mediático e novos protagonistas no plano político. Esses centros terão de existir, pelo menos, no meio empresarial, na comunicação social e nas universidades e, claro está, dentro do próprio partido. Terá de haver também um partido de Governo em arrasadora crise de identidade susceptível de se deixar levar pela direita liberal na procura de novas soluções de fundo. É precisamente a activação conjugada de todos esses elementos neste momento que dá a perceber que algo de novo está a começar na direita portuguesa.
O elo mais fraco continua sendo a articulação com o mundo empresarial nacional. Apesar de tudo, movimentações como o Compromisso Portugal, a atitude pública de conhecidos empresários mais jovens que prosperam razoavelmente fora da sombra do poder político e a disponibilidade para "ajudar", discreta mas generosa, de pesos-pesados mais conservadores são sinais da crescente abertura doméstica à modernidade liberal. A profunda consonância com o empresariado liberal europeu e até global, bem como a visível empatia cosmopolita de gestores nacionais e estrangeiros são trunfos a ter em conta. Quanto ao mundo das ideias, a direita liberal já possui em alguns das mais influentes universidades do País activíssimos focos de irradiação doutrinária e formação de quadros. Um trabalho de mais de duas décadas bem presente em inúmeros pontos nevrálgicos do País. Focos igualmente activos e missionários predominam nos principais órgãos de comunicação social, sobretudo em matéria económica e social, onde muito frequentemente se invectiva sem fundamentação qualquer desvio da norma liberal como evidente estatismo cavernícola. Mas o mais recente sinal é a congregação de doutrinadores e ideólogos de qualidade em torno de ambiciosos projectos editoriais como a revista Atlântico. Quanto à escolha de partido-veículo, o PSD obedece plenamente aos requisitos. Nem sequer haverá vantagem em liderá-lo desde já. Bastará estar em posição de condicionar a sua liderança e de tutelar a orientação ideológica do seu Programa no futuro Governo. Objectivos ao alcance de António Borges, de acordo como o seu confirmado estatuto de reserva messiânica apoiada em poderoso grupo de notáveis. Acrescente-se-lhe a denúncia genuína do clientelismo e da corrupção, que pode chegar a um populismo q.b. e teremos uma razoável rampa de lançamento da agenda da direita liberal.
Muito mais haveria a dizer. Incluindo o que estas manobras poderão trazer para a transformação da charneira PS/PSD e o reforço dos seus tropismos em direcção ao Bloco Central.
joaocravinho@hotmail.com
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