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editorial

O erro presidencial

 

A cada dia que passa as circunstâncias políticas reforçam o seu contributo inestimável para uma falta de tino generalizada no País. O Governo e a maioria parlamentar que o assiste querem reduzir os poderes presidenciais. O Presidente da República, além do péssimo hábito de falar por interposta pessoa, escolheu o epicentro da crise para reclamar o poder de nomear as entidades reguladoras - nas áreas da saúde, da comunicação social ou da concorrência. Estes debates são saudáveis mas não devem, por razões óbvias, ocorrer num ambiente de picardia e crescente crispação.

A continuar esta vertigem de humores, só falta que Alberto João Jardim venha propor a dissolução do Presidente da República e que este venha justificar a dissolução do Governo com base em erros protocolares do ainda primeiro-ministro...

O Presidente já não está no seu lugar: ou seja, acima das questiúnculas partidárias. Por sua iniciativa, Jorge Sampaio conseguiu, com o peso do seu silêncio e a leveza irreflectida do que diz ou manda dizer, fazer parte da pré-campanha eleitoral. E este desnorte presidencial beneficia sobretudo Pedro Santana Lopes. O ambiente atípico de confronto institucional é o aquário perfeito para o primeiro-ministro. Dá-lhe motivos para se indignar e assumir o interessante estatuto de perseguido político.

É verdade que Santana Lopes parte, por sua culpa, de uma posição de desvantagem nesta corrida. Mas se juntarmos a deriva presidencial à falta de clareza programática do PS e à admissão de um cenário de aliança pós-eleitoral com o Bloco de Esquerda, é manifestamente prematuro declarar a morte política de Santana Lopes. E, já agora, convém não desprezar os aumentos da função pública e das pensões, que, por junto, beneficiam mais de três milhões de eleitores. Isto é, não basta silêncio e pose de Estado a José Sócrates para ser primeiro-ministro. Falta o golpe de asa que faz a diferença: a coragem de afirmar que só governa com maioria absoluta. Não por arrogância mas, sim, por convicção.

MIGUEL COUTINHO


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