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Mãos septuagenárias transformam arame em arte num 'atelier' de rua

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isaltina padrão  

Arame, fio, plástico e cola. O material é singelo, mas a habilidade de mãos permite fazer autênticas obras de arte. Naïf, é certo, no entanto, não deixa de ser arte, vendida ao preço da chuva, é verdade. São pescadores, fadistas e... também cães - cada figura custa três míseros euros, acabando muitas por serem oferecidas. A minuciosa confecção ocupa as mãos septuagenárias de Manuel Jacinto Rosa, todas, mas mesmo todas, as manhãs.

«Isto não paga sequer a mão-de-obra menina. Cada boneco demora-me umas cinco horas a fazer.» O desabafo surge, por entre lamentos referentes a uma «reforma de miséria», uns 200 euros «42 contos» mensais, que são «melhor do que nada. Sempre dá para ir sobrevivendo».

Às vezes, as receitas da venda dos bonecos de arame - que faz, acima de tudo, para matar o tempo - aumentam um pouco o cachet, mas raramente. Há dias, muitos dias, em que Manuel Jacinto Rosa não faz «nem um tostão». Assim como há dias, muitos dias, em que os transeuntes nem sequer olham para os seus artigos. Muitos até passam por ele como se fosse transparente.

O atelier, esse está sempre aberto ao público, e os artigos sempre expostos naquela pedra mármore em que se senta numa das esquinas da Avenida da Liberdade com a Praça Marquês de Pombal. «O meu lugar era do outro lado. Ao pé da companhia da electricidade, mas as obras obrigaram-me a vir para aqui.» E ali assenta arraiais todas as manhãs, logo a partir das 8 e meia ou 9 horas (no máximo). Num lugar sombrio, onde os raios de sol demoram a chegar. E o frio tornar-se-ia difícil de suportar, não fosse o cachecol de lã enrolado ao pescoço e o boné enfiado na cabeça a cobrir os cabelos brancos.

As mãos, engelhadas devido ao peso da idade, só não estão geladas porque não param de bulir. Cortam o plástico com a tesoura aqui, enrolam o arame com alicate ali. E colam, e ajeitam e enfim.... já lá vão trinta anos dedicados a esta arte, agora realizada a tempo inteiro, mas que já foi ocupação de horas livres em pleno mar. Do tempo em que era pescador.

Era no barco, enquanto esperava que as redes enchessem, que procedia à feitura dos bonecos. Já nessa época as temáticas eram as mesmas: pescadores, em homenagem à antiga profissão; fadistas, por amor ao fado e cães, por «nenhum motivo em especial». Às vezes, também faz dançarinos, mas agora «já não há nenhum para amostra».

Os pescadores são, de longe, e de entre todos, os bonecos que lhe dão mais gozo fazer. «Falam da minha profissão, o que eu fazia para ganhar a vida», recorda em jeito de quem quer manter vivas lembranças do passado. E não só. Transmitir aos mais novos alguns valores é também um dos seus objectivos, ainda que de forma inconsciente. Mas, no decorrer da conversa, deixa escapar a mensagem: «Sabe, antigamente a vida não era fácil. Eu fiz parte dos que carregavam canastras para vender o peixe por essas ruas.» O olhar, nostálgico, desvia-se para um dos bonecos: o pescador com canastras acaba por lhe transportar o pensamento para tempos que já lá vão. Pelo menos assim parece...

Dos mesmos tempos, recorda os fadistas, cuja colecção de guitarras portuguesas acabadinhas de fazer estão prontas a serem coladas nas mãos dos bonecos coloridos que aguardam o retoque final. Os cães são mesmo os que têm menor procura por parte dos clientes, geralmente pessoas mais velhas e de nacionalidade portuguesa. «São poucos os que compram. A crise toca a todos, sabe? O dinheiro não chega para tudo e para os bonecos muito menos.» Um cenário que muda ligeiramente no Natal, em que o negócio regista alguma melhoria. Mas a altura também é aproveitada pelo artista para presentear os amigos com lembranças feitas pelas suas próprias mãos.


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