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Dez mil pessoas morrem por ano vítimas de infecções hospitalares

por

joão figueira  

Cem mil pessoas contraem, anualmente, uma infecção nos hospitais portugueses, o que corresponde a 10% do número total de internamentos. Destes, 10 mil morrem em consequência da infecção e outros dois a três mil acabam por falecer por causas directas e indirectas da respectiva infecção, revelou ao DN a coordenadora do Programa Nacional de Controlo de Infecção (PNCI), Elaine Pina. Dito de outro modo, em cem pessoas internadas há pelo menos uma que morre por infecção hospitalar.

«A deficiência de estruturas existentes, a insuficiência de lavatórios para as mãos, quartos de isolamento e barreiras sanitárias entre limpo e sujo, aliada a uma ausência de investimento, quer governativo, quer ao nível da gestão das instituições de saúde» explicam, segundo a mesma especialista, os actuais números que «têm uma grande repercussão quanto ao aumento dos custos, visto prolongarem o internamento e aumentarem o consumo de técnicas diagnósticas e terapêuticas».

Elaine Pina lamenta, por outro lado, que «o combate contra a infecção nosocomial [contraída em hospital] esteja ausente das prioridades da política de saúde», o que leva, por exemplo, a que «Portugal não tenha regras definidas quanto ao número de quartos de isolamento, como sucede em muitos países europeus», numa altura em que «os doentes são, progressivamente, mais idosos, logo de maior risco». Mais: «Se 10% das verbas que são canalizadas para a sida viessem para o combate à infecção nosocomial, há muito que este problema tinha diminuído», garante.

Para o director clínico do hospital de Santo António, do Porto, Alexandre Abreu, que concorda inteiramente com as críticas de Elaine Pina, «era fundamental o Governo dar meios para a criação de uma comissão de controlo nacional, à semelhança da norte-americana Center of Diseases Control», ideia também defendida por Torres da Costa, presidente da Comissão de Controlo de Infecção do S. João (Porto).

António Rodrigues, do Observatório da Saúde, vai mais longe, ao defender «a aplicação de uma política nacional do medicamento», pois «é absolutamente necessário criar mecanismos que combatam os desvios ao nível da prescrição».

Isto porque uma das causas que toda a comunidade médica admite estar na origem de um número importante de infecções tem a ver com a ausência de uma política de utilização de antibióticos. Dados do Infarmed apresentados pelo Observatório da Saúde, revelam que Portugal é o maior prescritor europeu de quinolonas (13,3%), o que equivale quase ao dobro do consumo de Espanha, segundo da lista. No que toca às cefalosporinas, outra família de antibióticos, a prescrição do grupo de terceira geração (os mais potentes) é de 46,3%, enquanto a generalidade dos países da Europa se fica pela prescrição de primeira e segunda geração. Inglaterra e Irlanda não têm registos de qualquer prescrição de terceira geração.

Mas se tanto o PNCI como todos os clínicos com quem o DN falou vêem vantagens na harmonização do uso dos antibióticos, incluindo nessa medida os centros de saúde, isso significaria, por outro lado, «uma certa luta contra o mercado», afirma Luís Januário, director das Urgências do Pediátrico de Coimbra, assumindo em voz alta o que a maioria diz à boca calada.

Na mesma linha de pensa- mento, António Rodrigues salienta que «alguns dos desvios de pres-crição estão relacionados com a novidade de um medicamento», razão pela qual entende que «seria desejável criar mecanismos de combate ao enviesamento da prescrição».

Luís Januário considera, por outro lado, que «não há política de antibióticos que não tenha que ser avaliada, até para ver as resistências dos microrganismos». Daí, considerar que «a discussão dos insucessos e a realização de auditorias internas deveria ser uma prática generalizada», embora alertando, como outros especialistas, que esta éuma matéria que deve, também ser bem analisada ao nível da comunidade.


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