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por
paula cardoso almeida
coimbra
Sem conseguir impedir a saída de dois camiões de urânio das minas da Urgeiriça, ontem, de manhã, populares de Canas de Senhorim cortaram, depois, desde o início da tarde e até ao princípio da noite, a linha de comboio da Beira Alta. Retida pelos populares desde as 13.00, a composição com destino à Guarda só abandonou a estação daquela vila quatro horas depois, invertendo a marcha no sentido de Santa Comba Dão, após o transbordo, para um autocarro, de cerca de dezena e meia de passageiros.
Na origem do bloqueio estava a exigência de uma audiência com o Presidente da República e a «velha reivindicação» da elevação da freguesia, integrada no município de Nelas, a concelho. «Só queremos diálogo», sublinhava Luís Pinheiro, líder do Movimento para a Restauração do Concelho de Canas de Senhorim, acusando Sampaio de «não assumir os seus compromissos» e de pôr em causa a «credibilidade dos políticos».
O braço-de-ferro com as forças policiais começou às 08.00, quando mais de uma centena de habitantes, concentrados junto às instalações da Empresa Nacional de Urânio (ENU), tentaram impedir, à semelhança do que aconteceu há uma semana, a saída de 30 toneladas de minério para a Alemanha.
Os dois camiões acabariam por abandonar a empresa ao início da tarde, após a intervenção da GNR. «Compreensão para não haver dano para ninguém» e «colaborem porque nós não queremos magoar ninguém» foram as frases mais proferidas pelos militares, que acabaram por não ser ouvidas pelos manifestantes.
Perante a ineficácia das palavras, duas centenas de agentes, 50 dos quais do Batalhão Operacional do Regimento de Infantaria da GNR (Lisboa), tentaram, por diversas vezes, retirar algumas dezenas de pessoas, que, entretanto, bloqueavam, sentados ou deitados, a estrada por onde supostamente deveriam sair os camiões. A via utilizada seria, para surpresa de todos, outra. Eram 12.30 e os dois veículos pesados invertiam a marcha e saíam pela rua menos provável, gerando, assim, um ambiente de revolta incontrolável. Na sequência dos incidentes, dois populares sentiram-se mal e foram transportados ao centro de saúde local.
«O silêncio e a força bruta» não são solução, dizia Luís Pinheiro, também presidente da junta de freguesia local, enquanto os populares, exaltados, gritavam palavras de ordem contra o Presidente da República. «Fascista» acabaria por ser a palavra mais ouvida durante todo o dia. «Quando o mais alto governante do País não tem palavra. Pobre país...» lia-se num cartaz.
A situação viria a agudizar-se na gare ferroviária, onde cerca de oito dezenas de elementos da GNR, que ladeavam o comboio regional (procedente de Coimbra e com destino à Guarda), tentaram, sem êxito, escoltar a composição. Por alguns momentos temeu-se o pior, com confrontos directos entre os militares e os populares (agora em maior número), que, depois de terem sido retiradas as traves, invadiram a linha de comboio. Os ânimos exaltaram-se e houve mesmo quem atirasse pedras, que acabaram por ferir, sem gravidade, dois agentes.
CRIME. O ministro da Administração Interna afirmou que a polícia actuou apenas para retirar os obstáculos postos por populares na linha de comboio. «Um corte de uma via férrea ou de uma via pública é um tipo de comportamento que exige uma intervenção de fundo porque constitui um ilícito de natureza criminal», disse, entretanto, Daniel Sanches, em Lisboa. Uma fonte da GNR adiantou ao DN que esta força vai «dar conhecimento aos tribunais» dos acontecimentos de ontem, designadamente das agressões, com pedras, a dois guardas, e da desobediência à autoridade.
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