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por
joão césar
das neves
Professor universitário
As maiores catástrofes da vida não são súbitas e devastadoras. São lentas e devastadoras. Os germes matam mais que leões. A principal dificuldade do nosso desenvolvimento não é o susto da globalização ou a explosão da concorrência. É a lenta podridão do sistema social, roído pela cobiça, corporativismo e burocracia. Esta lepra secreta tornou--se já bem visível na educação. Vejam-se as recentes estatísticas da OCDE.
Suportámos há tempos o arrastado escândalo da colocação de professores. Mal se referiu a incomensurável tolice de todo o exercício. Nenhuma outra profissão do País exige um método de afectação centralizado de dezenas de milhares de funcionários. Este sistema mentecapto, que só pode correr mal, deve--se apenas à imposição pelos sindicatos de um «direito» absoluto do docente a concorrer ao posto que lhe apetecer, sempre que lhe apetecer, obrigando o ministério a pagar os custos desse direito. Isto nada tem a ver com o interesse dos alunos, que prefeririam estabilidade no ensino. Os professores, que passaram por vítimas, são os verdadeiros responsáveis. E conseguiram assumir-se de novo como o assunto central da educação.
Se fosse só isto, estaríamos bem. Mas não passa de um detalhe num sistema todo ele absurdo. O curriculum escolar, por exemplo, tem todos os defeitos do repudiado «livro único» salazarista sem nenhuma das vantagens. O ministério detalha ao pormenor o que se deve fazer em cada aula de cada cadeira. Esses elementos, não obrigatórios, são meras sugestões e apoios pedagógicos. Na prática, porém, acabam por ser seguidos cegamente, não só por comodismo mas também por medo de problemas nos exames nacionais. Assim a ortodoxia ministerial se impõe totalitariamente ao País.
Em teoria, estes programas são isentos, objectivos, neutros. Como essa imparcialidade não existe, acabamos por ter um ensino altamente ideológico que nem sequer se assume como tal. Alguns casos têm sido denuncidos, na História, no Português, na Economia.
Mas, um pouco por todas as cadeiras, a escola nacional impõe a visão mecanicista, politicamente correcta, relativista e estatizante que naturalmente germina no meio burocrata que a concebeu. O qual nem sequer repara na sua asfixiante ditadura intelectual disfarçada, pois toma a sua opinião como a verdade absoluta.
Esta hegemonia, porém, não permite aproveitar a única vantagem que teria: os livros escolares mal podem passar de alunos para irmãos, primos ou amigos.
O ensino é concebido centralmente, mas implica uma variedade de edições que dizem a mesma coisa, para gáudio das editoras. É preciso que floresça o chorudo negócio livreiro escolar. Não são só os manuais, mas também os «cadernos de perguntas», os «livros de exercícios», os «mapas educativos» que enchem enormes mochilas com rodas, pesando quase tanto quanto a criança que as transporta.
Isto nada tem a ver com qualidade de educação da juventude. A vida real depois recebe-os cheios de erudição, dúvidas e confusões. O que importa, porém, é que eles ocupem um número crescente de professores.
O ensino obrigatório até ao 12.º ano e a multiplicação das cadeiras especializadas no final do liceu servem não os alunos, mas um bem maior: a carreira docente.
A sociedade está doente e o sistema educativo em ruínas. As coisas só não são piores porque Portugal é boa gente e dá um jeito. Vamos sobrevivendo nesta devastadora suave catástrofe.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
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