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por
josé antónio
barreiros Advogado
Circunstâncias de alinhamento gráfico fazem com que eu compartilhe esta página com dois membros da Administração deste jornal.
Ambos convergiram numa decisão: afastar o director. Um deles anunciou-o ao País através de uma televisão, da qual é comentador.
Entretanto, uma senhora que, afinal, eles já haviam convidado para ser a próxima directora, veio publicamente dizer que não existiam condições para fazer deste jornal um diário «de referência, isenção e aceitação pública».
Chegadas as coisas a este ponto, compreendam os leitores que eu saia deste lugar. É patente o que está actualmente em causa na comunicação social portuguesa: o domínio dos media pelo grande capital, a entente cordiale entre esse grande capital e o actual Governo. Poucas serão as excepções.
A imprensa deixou de ser um problema de direito constitucional à liberdade de expressão, passou a ser um problema de direito comercial à distribuição de dividendos.
Num quadro destes, eu corro o risco de me transformar na demonstração de que as coisas não são tanto assim quanto parecem.
Enquanto aqui estive nunca sofri a mais pequena sugestão ou limitação de quem quer que fosse; não quero é continuar neste ambiente de degradação.
Ao público em geral há duas coisas que já não escapam.
Primeiro, em Portugal está a instalar-se um clima de medo; não o medo antigo de se ser preso por um delito de opinião, mas um medo moderno, nascido na zona dos interesses, do que se ganha e do que se perde. A hipocrisia, em Portugal, passou a ser a forma de os fracos sobreviverem, a velhacaria um modo de os fortes dominarem.
Segundo, em Portugal a vida política vive na mentira e na desconfiança: ninguém diz totalmente a verdade, ninguém acredita minimamente no que se diz.
É evidente que é um problema de liberdade o que está em causa, um duplo problema de liberdade: é que sem liberdade de empresa, não há liberdade de imprensa.
Ora a concentração capitalista na comunicação social e a sua aliança com o poder político, num só golpe, geraram a miséria a que assistimos. Cada um que vai à quase moribunda Alta Autoridade para a Comunicação Social é mais um rol de ignomínias que vem ao de cima.
Começa a perceber-se o bastidor do espectáculo. Um destes dias os leitores, para estarem capazmente informados, talvez tenham, não de comprar um jornal, mas sim de comprarem o próprio jornal que o publica. Ser jornalista é hoje recolher notícias que outros embrulham no meio da publicidade e da propaganda. Honrados profissionais vivem hoje essa agonia.
Sem ser jornalista, a minha vida está intimamente ligada a escrever nos jornais. O cheiro da tinta de imprensa ainda é para mim um excelente afrodisíaco. Antes do 25 de Abril, com 19 anos, já estava no Comércio do Funchal, no República e no Notícias da Amadora. Talvez, por isso, seja insuspeito para dizer com muita mágoa: pobres coronéis do «lápis azul» que, no antigo regime, a troco de uma magra avença, canhestros e ridículos, tentavam servir um regime, «cortando a raiz ao pensamento».
Comparado com o que se passa hoje, era um mundo artesanal.
É que, então, ainda tínhamos do lado das redacções alguém que, por meio de uns bons berros, em português vernáculo, fazia a notícia passar. Mutilada, esfrangalhada, às vezes quase ilegível, enfim, a notícia passava, e os leitores, habituados a ler nas entrelinhas, percebiam-na.
Hoje já quase não há quem dê berros. Numa só coisa estamos iguais: os leitores começam a saber ler nas entrelinhas.
Obrigado a quem me leu, obrigado a quem permitiu que aqui escrevesse. Durante semanas escrevi gratuitamente, espero não ter escrito em vão.
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