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RÚSSIA QUER REFAZER POTÊNCIA MILITAR

por

LUÍS NAVES  

Estratégia. Moscovo anunciou que vai acelerar o seu rearmamento a partir de 2011 e invocou a expansão da NATO como um dos motivos. A aposta declarada é a modernização das suas armas nucleares. O vencedor da Segunda Guerra Mundial não se conforma com a fraqueza económica e o declínio militar

Americanos desdramatizam ideias do Kremlin

O Presidente russo, Dmitri Medvedev, anunciou ontem um programa de rearmamento "em larga escala" do exército e da marinha, a partir de 2011. Falando para altos representantes do Ministério da Defesa, o líder russo explicou que a "análise da situação político-militar no mundo mostra que existe um potencial de conflitos sérios em certas regiões, alimentado por crises locais e pelas incessantes tentativas da NATO de desenvolver as suas infra-estruturas militares perto da Rússia".

Esta não foi a única referência exterior para justificar a aposta no rearmamento. Medvedev falou das lições do conflito com a Geórgia (do ano passado), que expôs "as nossas fragilidades", sobretudo "certas categorias de armas e meios de comunicação". Em outra parte da sua intervenção, Medvedev foi um pouco mais preciso sobre as intenções do Kremlin: "A tarefa é aumentar a capacidade de combate das nossas forças, em primeiro lugar as forças estratégicas nucleares."

Estes parecem ser os pontos cruciais da intervenção de Medvedev: o programa de rearmamento vai centrar-se em tecnologias já desenvolvidas e com extraordinário impacto para o respectivo preço; pelo menos uma parte da motivação está ligada à expansão da NATO; e o anúncio dos planos para 2011 surge poucos dias depois de se confirmar a distensão das relações entre Estados Unidos e Rússia, um dos pilares da estratégia externa da administração de Barack Obama.

A nova ambição russa não será fácil de pagar. Após anos de preços altos do petróleo, Moscovo atingiu uma situação económica mais estável, mas a crise internacional está a bater com especial força à porta do Kremlin. Comparado com o americano, o orçamento militar russo é 13 vezes menor. A nível económico, a Rússia é uma potência de média dimensão.

Talvez por tudo isto, Washington desdramatizou o anúncio do presidente russo. O porta-voz do Pentágono, Geoff Morell, explicou que os Estados Unidos não viam problema nenhum num plano de rearmamento: "A Rússia é um país soberano e independente. Tem todo o direito de se dotar de uma sólida [capacidade] de autodefesa." Depois, Morell citou o secretário da Defesa, Robert Gates, "que já referiu no passado os desafios demográficos com os quais o Governo russo se confronta e que vão provavelmente impedir [a Rússia] de manter a actual dimensão das suas forças convencionais. Notámos que o Governo russo tenciona investir de forma maciça no arsenal nuclear", acrescentou o porta-voz. A questão demográfica (redução da população) será difícil de resolver a médio prazo.

Outra reacção, do embaixador da Rússia junto da NATO, Dmitri Rogozin, parecia confirmar este tipo de análise: "As forças nucleares estratégicas da Rússia são uma das estruturas mais estáveis do nosso país. Mesmo no período das mais profundas convulsões, da desintegração da União Soviética, de mudanças do sistema político, o nosso escudo nuclear funcionou como um relógio". O plano, acrescentou o diplomata, é que exista "paridade das forças estratégicas com outras potências, principalmente com os membros da NATO".

A expansão da Aliança Atlântica para regiões muito próximas do território russo é visto pelo Kremlin como uma ameaça. A anterior administração americana avançou com um escudo anti-míssil na Europa Oriental que o Kremlin viu sempre com grande preocupação, pois parecia ser uma arma dirigida à sua dissuasão nuclear.

Após a queda do Muro de Berlim, os antigos países satélites da União Soviética aderiram à NATO, um por um, tendo depois entrado as repúblicas soviéticas do Báltico. Moscovo reagiu com agressividade à intenção de adesão da Ucrânia e da Geórgia, deixando a aliança com um dilema difícil: os países são independentes e a sua adesão à NATO é um direito; mas isso parece inaceitável para a Rússia, que em apenas vinte anos perdeu demasiadas jóias do seu império.


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