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por
HELENA TECEDEIRO
Visita. Depois dos Camarões, segue para Angola
Vírus já contagiou mais de 20 milhões de pessoas no continente
"Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema." Esta frase, proferida pelo Papa no avião que ontem o levou do Vaticano aos Camarões, deu o tom à primeira visita de Bento XVI a África - um continente fortemente atingido pela doença - desde que chegou à liderança da Igreja Católica, há quatro anos.
Segundo os vaticanistas ouvidos pela AFP, esta terá sido a primeira vez que Bento XVI usou a palavra "preservativo" desde que foi eleito Papa. E nas suas declarações, o Papa reacendeu a polémica em torno da posição da Igreja em relação ao uso do preservativo. E indignaram as organizações não governamentais que trabalham na luta contra a sida na África subsariana, onde o número de infectados com o vírus ultrapassa os 20 milhões.
Para Rebecca Hodes, da Campanha Acção e Tratamento na África do Sul, se o Papa estivesse empenhado em evitar novas infecções deveria concentrar-se em promover o acesso aos preservativos e dar informações sobre como usá-los, explicou ao diário britânico The Guardian. E acrescentou: "Em vez disso, a sua posição revela que o dogma religioso é mais importante para ele do que as vidas dos africanos."
Para evitar a sida, a Igreja Católica defende a abstinência e a fidelidade. Mas esta posição, que já fora defendida pelo antecessor de Bento XVI, João Paulo II, não é consensual entre religiosos que contactam com os doentes. Em Janeiro de 2005, meses antes de morrer, João Paulo II afirmara: "O Vaticano considera ser necessário antes de mais , para combater esta doença de maneira responsável, aumentar a prevenção, sobretudo através da educação e respeito dos valores sagrados da vida."
Ontem não foi a primeira vez que Bento XVI se referiu ao surto de sida que alastra pelo continente africano, reduzindo drasticamente a esperança de vida em muitos países. Em 2005, pouco depois de ser eleito, disse aos clérigos africanos que o uso de preservativos não iria "curar" aquela "epidemia cruel". Mais de dois terços - 67% - dos 32,9 milhões de infectados com o vírus da sida vivem na África subsariana. E em 2007 três quartos das mortes devido à doença aconteceram naqueles países.
Chegado a Yaoundé ao início da tarde, o Papa foi recebido pelo Presidente camaronês. Num curto discurso de boas-vindas, Paul Biya agradeceu a atenção que Bento XVI dispensa a África. O Papa, por seu lado, afirmou-se portador de uma "mensagem de esperança" para "os homens e mulheres esquecidos".
Na capital dos Camarões, Bento XVI, que segue no dia 20 para Angola, aludiu aos "conflitos regionais que destroem África", ao "tráfico de seres humanos", mas também à "escassez de bens alimentares", à "crise financeira" e "alterações climáticas".
De visita a um continente onde a Igreja Católica é muito dinâmica - em 2025 estima-se que um sexto dos católicos viverá em África -, o Papa garantiu não ir "propor aos africanos novas formas de opressão económica e política". Bento XVI sublinhou ainda querer pacificar as tensões com outras confissões religiosas num continente onde o islão e as seitas são muito influentes.
Em Yaoundé, a chegada de Bento XVI criou um verdadeiro corrupio, com os habitantes a verem a capital bloqueada durante quatro dias. Em todas as esquinas, sobretudo na movimentada Avenida John F. Kennedy, as bandeiras dos Camarões rivalizam por um lugar ao lado da do Vaticano.
"Até à partida do Papa vai estar tudo parado", confessou à AFP uma mãe de família que optou por manter os filhos em casa e evitar mais dores de cabeça devido aos cortes no trânsito. Quem não tem o precioso livre--trânsito que dá acesso às áreas vedadas vê-se por vezes forçado a percorrer a pé longas distâncias. Ontem, milhares de pessoas juntaram-se no percurso entre o aeroporto e a cidade para saudar Bento XVI que fez o caminho do papamóvel.
Para hoje, o Papa tem previsto um encontro com líderes católicos e muçulmanos. - com agências
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