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por Mário Soares
1 . Foi realmente uma megamanifestação a que a CGTP/IN levou a efeito, em Lisboa, no passado dia 13. É sabido que os manifestantes vieram de todo o País, em camionetas, especialmente fretadas, e que num dia ameno de sol não é desagradável uma visita à capital. Tanto mais que se tratava de gritar a indignação que sentem contra o desemprego, que sofrem na carne, a pobreza, a incerteza quanto ao futuro, dos próprios e dos filhos e netos, e das ostensivas - e não resolvidas - desigualdades sociais, que em vez de serem corrigidas se agravam.
Claro que vivemos uma crise global, que está a afectar o mundo inteiro e que é injusto - embora fácil - apontar o dedo ao Governo Sócrates, como o responsável único das dificuldades que cada vez mais os portugueses sentem. Sobretudo quando as eleições se aproximam e, da esquerda à direita, há uma convergência, no imediato, para atacar o Governo, sem que se apresente qualquer alternativa, coerente ou sequer visível, para o substituir. Isto é: juntar-se-ia, tudo a continuar assim, à crise económica e financeira uma crise político-institucional, de difícil resolução, nos termos da Constituição que nos rege. Coisa que os nossos dirigentes políticos e sindicais parecem não pensar ou, se pensam, não exteriorizam uma tal preocupação.
A situação de crise que estamos colectivamente a viver é, obviamente, a mais difícil de todas as por que passámos, desde a Revolução dos Cravos. E tivemos bastantes. Aliás - atenção -, não terá solução fora do quadro comunitário. Isso aconselharia o Governo, penso, a ouvir com atenção e a ponderar a indignação das pessoas, que vai crescer, não tenhamos ilusões, e a debater o fenómeno, as suas causas e consequências, com os responsáveis dos partidos, em ambiente discreto e calmo, distante dos prélios parlamentares e televisivos habituais, que ocorrem regularmente e, em especial, com as direcções sindicais, que têm um conhecimento mais directo do que se passa no terreno e do que sentem as pessoas mais afectadas pela crise.
Não basta fazer uma viragem à esquerda no discurso político - que é, obviamente, importante e mesmo decisiva - para enfrentar a crise e a vencer. É preciso que o conhecimento da crise, nas suas causas e consequências, chegue às pessoas, aos trabalhadores desempregados, aos que estão desesperados com a falta de perspectivas e com os horizontes completamente fechados que se lhes apresentam e às suas famílias. Ouvi-los, repito, dar-lhes esperanças fundamentadas e mostrar-lhes como se lhes pode valer, a prazo.
Se isso não ocorrer: mais diálogo, mais concertação social, mais ajudas concretas para tantos casos humanos dramáticos, tudo o resto que se diga ou faça - neste momento tão difícil - é completamente supérfluo e dispensável. Pondere-se nisto.
Por outro lado, ninguém parece ter sido responsável pela crise, embora se saiba que há quem está ainda agora a ganhar, especulativamente, com ela. Esse é outro ponto que as pessoas sentem, sobretudo as mais afectadas e que sabem serem-lhes devidas explicações, por quem de direito. A impunidade que parece cobrir os responsáveis e o sentimento de que as roubalheiras e a corrupção são vistas como uma fatalidade, sem remédio - que a justiça não actua, mas tudo se sabe ou julga saber por "fugas" sistemáticas que chegam aos meios de comunicação social e são difundidas sem explicação e, às vezes, por forma contraditória -, é um veneno que azeda as pessoas e as torna maldizentes, cínicas, desencantadas. Não é nada bom para o futuro da sociedade portuguesa. Ora é ao Governo que compete definir o novo rumo e dar garantias para que não fique tudo na mesma...
Uma megamanifestação não resolve nada. É certo. Mas alerta os responsáveis para o que tem de ser imperativamente resolvido. Não o esqueçamos!
2. Um exemplo que vem da América. Há umas semanas, o mundo foi surpreendido pela notícia da falência fraudulenta de um dos maiores magnatas da finança americana, Bernard Madoff, de 70 anos, antigo presidente da Nasdaq. Na quinta-feira passada, 12 de Março, Madoff compareceu perante o Tribunal do Distrito de Manhatan, de Nova Iorque, acusado de ter cometido um "conjunto extraordinário de crimes e de fraudes financeiras, ao longo de mais de vinte anos, de uma dimensão sem precedentes". O procurador disse à imprensa que iria pedir ao tribunal, contra Madoff, uma pena de 150 anos de prisão. Aliás, o arguido confessou parte dos seus crimes e o seu advogado de defesa invocou certamente o facto como atenuante.
Chama-se a isto, em matéria de justiça, não perder tempo. Um bom exemplo para muitos países europeus, Portugal incluído.
3. Uma viagem triunfal. O Presidente brasileiro, Lula da Silva, foi recebido na Casa Branca, em Washington, pelo seu homólogo, Barack Obama, com homenagens e honras especiais, devidas a um grande estadista mundial, líder de um grande país-continente, aliado e amigo dos Estados Unidos. Foi, de resto, o primeiro Presidente latino-americano a ser recebido por Barack Obama, o que dá bem o sentido e a importância desta visita, que aliás foi seguida com muita atenção pelos meios de comunicação americanos.
Do que se tratou, afinal? Em primeiro lugar, da crise mundial, como a encarar e como poderá ser ultrapassada, tendo em vista a reunião do G20, que decorrerá em Londres, em Abril próximo, e em que estarão presentes os Estados Unidos, o Japão, os cinco membros "mais importantes da União Europeia" (não se sabe quem os escolheu e com que argumentos) - o Reino Unido, a Alemanha, a França, a Itália e a Espanha - e os chamados países emergentes e poucos mais. O acordo fechado em Washington entre os Estados Unidos e o Brasil é importante, nesse sentido. Tanto mais que o Brasil se tornou, com as recentes descobertas, um dos países mais ricos do mundo, dadas as suas reservas petrolíferas, embora detectadas a grande profundidade, e outras. Obama e Lula convergiram nos remédios para a crise: mudança de paradigma económico-financeiro e optimismo quanto ao futuro, para dar confiança às populações. Lula disse: "A eleição de Obama representa uma oportunidade histórica para o mundo e para as Américas, em especial, que não podemos deixar perder." É verdade!
Como líder latino-americano, com especiais relações e conhecimento dos casos de Cuba (que visitou há poucas semanas) e da Venezuela, para além dos outros "grandes" latino-americanos, como: o México, a Colômbia, o Equador, o Peru, a Argentina e o Chile, compreende-se que preveja e acredite numa mudança nas relações entre estes importantes países e no relacionamento colectivo com o "grande vizinho do Norte". Uma abertura clara para a próxima Cimeira de Trinidad e Tobago, donde sairá, pelo menos, um novo diálogo com Cuba...
Para além disso, não esquecer a importância de um novo rumo para a Organização Mundial do Comércio, de modo a ultrapassar o impasse de Doha. Ponto que interessa particularmente à China, à Índia e à Rússia, no contexto de uma nova relação de forças com o Mundo Ocidental. Mas não parou por aí. Ofereceu os seus serviços, ao seu amigo Obama, para um novo diálogo com África - membro como é da CPLP - de modo a ajudar o continente no caminho de um novo desenvolvimento...
O Brasil é hoje, definitivamente, uma grande potência mundial. E cada vez contará mais no xadrez global. O que constitui um grande orgulho para Portugal...
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