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SUSANA SALVADOR
Brasil. Católico assumido, o Presidente da República insurge-se contra a pena de excomunhão decretada pelo arcebispo de Olinda e Recife contra a mãe da criança de nove anos que fez um aborto após ter sido violada pelo padrasto. Os médicos também foram alvo da pena. O Vaticano apoia o prelado
Tem nove anos e desde os seis que era violada pelo padrasto, mas o caso só foi conhecido quando ela se queixou de dores de barriga. No hospital no interior de Pernambuco descobriu que estava grávida de gémeos. Os médicos não hesitaram em optar pelo aborto, face ao risco de vida que corria. Mas esse aborto acabou por gerar polémica, com o arcebispo de Olinda e Recife a excomungar todos os envolvidos, incluindo a mãe da menina, e o Presidente Lula da Silva a criticar a Igreja Católica. Um facto raro por parte do Chefe do Estado brasileiro, que é católico assumido e sempre fez questão de manter as melhores relações institucionais com a Igreja. O caso está a desencadear uma tempestade política e já chegou a ter ecos no Vaticano.
"Como cristão e católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como esse. Não é possível que uma menina estuprada por um padrasto tenha esse filho, até porque a menina corria risco de vida", disse o Presidente.
Já antes, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tinha defendido a decisão dos médicos lembrando que no Brasil há duas excepções que tornam o aborto legal: em caso de violação ou risco de vida para as mulheres.
Argumentos insuficientes para o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, que resolveu excomungar os médicos e a mãe, que autorizou o aborto.
O pai da menina, evangélico, tinha-se mostrado contra. O padrasto, que se encontra detido e arrisca agora uma pena de 15 anos de prisão, não está abrangido: "Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão. Foi um pecado gravíssimo, mas, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente", enfatizou o arcebispo, que comparou o procedimento ao Holocausto.
Depois das críticas de Lula e do ministro da Saúde, o Vaticano saiu em defesa do prelado. "É um caso triste, mas o verdadeiro problema é que os gémeos concebidos eram duas pessoas inocentes, que tinham o direito a viver e que não podiam ser mortas", afirmou o cardeal Giovanni Battista Re, prefeito da congregação para os bispos e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina.
"É preciso defender sempre a vida. O ataque contra a Igreja brasileira é injustificado", acrescentou numa entrevista ao jornal italiano La Stampa, na qual defendia que a excomunhão contra a mãe e os médicos era uma pena "justa".
Com ou sem polémica, a menina que estava grávida de quatro meses já saiu do hospital em que foi realizado o aborto, estando agora num centro de acolhimento temporário com a mãe e a irmã de 14 anos, deficiente, que também era violada pelo padrasto. A menina, que pesa apenas 33 quilos e mede 1,36 metros, não sabe que fez um aborto, pensando ter sido internada por ter parasitas intestinais.
A mãe, que se tinha separado do pai das filhas há três anos, passando a viver com Jaílson José da Silva, um desempregado de 23 anos, alega que desconhecia os abusos cometidos contra a menina.|
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