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Centenas de milhares de portugueses deixaram para trás as suas casas quando em 1974 e 1975 a descolonização de África avançou a ritmo desesperado. Foi o mínimo. Houve também muitos que perderam património ainda mais valioso, como empresas ou terrenos. Associações de ex-residentes no Ultramar reivindicaram ao longo dos anos que o Estado português os indemnizasse. Ou que pressionasse os novos países africanos a fazê-lo. E agora a revelação de que foi possível a 55 residentes no antigo Zaire (actual República Democrática do Congo) receber verbas da parte do Governo de Kinshasa por expropriações feitas pelo regime de Mobutu Sese Seko na década de 70 certamente fará com que renasçam outras esperanças.
São legítimas as expectativas, mas convém não exagerar no optimismo. Há diferenças enormes entre esta situação e a de Angola ou Moçambique, por exemplo. Por um lado, o Zaire mudou não só de regime como também de nome e quem indemniza hoje não foi quem expropriou no passado. Por outro lado, e mais importante ainda, a relação entre Portugal e o antigo Congo belga não tem os traumas da relação do país com as cinco antigas colónias. Para cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses, angolanos e moçambicanos, os portugueses eram os colonizadores, os que se opuseram à independência dos seus países. Mesmo que houvesse condições financeiras para algumas compensações, é duvidoso que a complexidade histórica, legal e política permita uma solução como a agora negociada com o Congo.
Passados dezanove meses desde que começaram a rebentar, uma atrás de outra, várias bolhas especulativas por esse mundo fora, as repercussões das mais diversas actividades financeiras desligadas de um ajustado sentido do risco envolvido - e, por conseguinte, da economia real -, conduziram a economia global para uma provável recessão mundial, sem precedentes nas últimas sete décadas. No fim do ano passado, em Washington, os 20 países que geram 90% do produto planetário comprometeram-se com um conjunto de linhas de força para reformar de alto a baixo o sistema financeiro e o seu relacionamento com a economia não financeira. O resultado desse esforço de reformulação de práticas, processos e instituições ficou marcado para 2 de Abril próximo, em Londres.
O que os principais países europeus do G-20 ontem disseram em Berlim, a convite da chanceler alemã, é que ninguém pode dar-se ao luxo de sair de Londres com as mãos a abanar. E que o sistema não aguenta simples retoques de faz-de-conta. Se há alguma vantagem nas vozes diversificadas que emergem sempre de cada reunião de alto nível da Europa, é a de perceber até que ponto os mais importantes dirigentes políticos se sentem pressionados pela marcha dos acontecimentos. Isto é, até onde são sensíveis à inquietação crescente da rua, que vê medidas de milhares de milhões para estabilizar as finanças do mundo, sem que se sintam ainda os efeitos positivos nas suas vidas. O tempo está a contar e cidadãos de todos os continentes esperam uma nova ordem mundial, mais solidária, mais inclusiva e menos esbanjadora de recursos.
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