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João Marcelino
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AS PERGUNTAS NO PARLAMENTO

por João Marcelino  

1 Um primeiro-ministro vai ao Parlamento para defender as suas políticas, e é normal que use adjectivos. Os líderes da oposição estão lá para o questionarem, e ao Governo, e ganhavam em ser substantivos. Mas não. Como também julgam ser o seu destino "brilharem", para consumo externo e interno, os diversos líderes deixam, sistematicamente, José Sócrates passar pelos intervalos das perguntas com a habilidade política que se lhe reconhece.

Esta semana, depois de muitas e muitas polémicas estéreis, apenas Francisco Louçã conseguiu arrancar algo de importante ao primeiro-ministro, fazê-lo reconhecer aquilo que todos nós já percebemos: muito dificilmente o dinheiro dos contribuintes não será chamado a financiar o escândalo do BPN (que foi bem nacionalizado, mas isso é outra história).

De resto, pela vontade de arrancarem os aplausos das respectivas bancadas, e os dichotes indignados que fazem parte do chamado parlamentarismo, quem devia questionar acaba por se diminuir, e à pergunta.

No dia em que um qualquer líder parlamentar se centrar nas questões e as repetir tantas vezes quanto as necessárias, objectivamente, sem se desfocar nem querer "brilhar", os cidadãos vão ficar mais bem servidos - e, aí sim, esse político dará nas vistas.

2 Marcelo Rebelo de Sousa só faz a Manuela Ferreira Leite aquilo que sempre fez no PSD: servir as suas estratégias e os seus interesses. Não há nada de novo. As coisas piorarão bastante mais para a líder se algum dia, nos próximos meses, por um milagre não previsível face a tanto erro, as sondagens mostrarem a mais pequena possibilidade de o PS perder. Aí, sim, Pacheco Pereira, o D. Quixote desta história, verá que o perigo para a sua Dulcineia, escolhida e recomendada ao Povo, sempre ingrato e mal-agradecido, não é apenas Passos Coelho. A conjura tem mais moinhos.

3 Os processos vão sendo sucessivamente arquivados contra Pinto da Costa. Só avançará o "caso do envelope" ao árbitro Augusto Duarte, alegadamente recebido em casa do presidente do FC Porto na véspera de um jogo com o Beira-Mar, na época 2003/04. Tudo isto significa pelo menos duas coisas: a primeira, e essencial, que convém o Ministério Público arranjar provas antes de acusar alguém; segundo, que os julgamentos públicos são apenas uma parte da nova sociedade que construímos - e ainda bem que assim é. Mesmo quem, como eu, vê personificados no dirigente desportivo Pinto da Costa (e Valentim Loureiro, e Pimenta Machado) muitos dos males do futebol português não pode deixar de perceber que houve aqui uma tentativa de claro linchamento do ser humano.

Sejamos justos: a senhora Carolina Salgado, testemunha credível para acusar Pinto da Costa, o homem com quem viveu durante quase seis anos, não foi sequer processada quando no seu livro diz muito claramente que foi ela quem fez os contactos para mandar sovar um vereador de Gondomar, de seu nome Bexiga. O homem acabou, certamente por sorte, vivo, apesar de barbaramente agredido, mas a senhora ficou impune e tornou- -se numa estrela do jornalismo-benfiquista militante. Diz agora um juiz que o testemunho não é credível. Ou seja, afinal a justiça tem lógica.|

Vi ontem, pela terceira vez (sim, confesso), um Jornal Nacional da TVI de sexta-feira e fiquei estarrecido: os 30 minutos iniciais foram um conjunto inacreditável de "peças" de ódio e perseguição, um delírio justiceiro que abrangeu toda a semana, a propósito e a despropósito. Depois houve um intervalo e o delírio voltou, repetido, como se fosse um qualquer programa de humor. Sei que não é politicamente correcto dizê-lo, e a TVI é muito mais do que "aquilo", felizmente, mas "aquilo" é a desonestidade intelectual elevada a um nível sem precedentes. Coragem é outra coisa e não precisa de ser proclamada. Já agora: na ERC e na Comissão da Carteira não há ecrãs para ver este crime de lesa-jornalismo permanente à sexta-feira?


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