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por
PATRÍCIA JESUS (Texto)
LEONARDO NEGRÃO (Foto)
Redes sociais na Internet seduzem cada vez mais os adultos
Para Pedro Mota Soares longe vão os tempos do velhinho ZX Spectrum. Nunca será um nativo do ciberespaço -ninguém que se lembre de computadores com cassetes o é - mas fala bem a língua. Numa mão traz um livro sobre a "geração Milenium" - a que não concebe um mundo sem internet -, e noutra segura o Blackberry, um daqueles telemóveis ditos inteligentes, de que também são adeptos Barack Obama e a Rainha Isabel II.
Com acesso permanente à Internet, o deputado de 34 anos, aderiu recentemente ao Twitter. "Agora, sei mais dos pensamentos de pessoas que não conheço do que dos meus amigos e família. É um desafio". Um desafio partilhado por uma geração - dos 30 aos 40 - que está a aderir à nova moda: as redes sociais como o Twitter ou o Facebook. Frente ao computador, encontram pessoas a quem tinham perdido o rasto há anos e refazem relações, sabem o que os amigos andam a fazer e satisfazem a sua sede de informação. Pouco a pouco vão amealhando centenas e às vezes até milhares de amigos. Como a Luciana que na mesma página vai do Brasil ao Japão. As redes sociais têm no entanto a utilidade que cada um lhes quiser dar: lazer ou trabalho.
A possibilidade de comunicar instantaneamente com centenas ou milhares de pessoas, quase a custo zero seduz anónimos. Mas este microfone aberto ao mundo é ainda mais aliciante para empresas e políticos. Foi por isso que Pedro Mota Soares aderiu: "Na política, para comunicar temos de estar onde estão as pessoas e este é um meio muito interessante porque não é unidireccional como os outros", explica.
Barack Obama desbravou caminho: durante a campanha à presidência dos Estados Unidos não ignorou este potencial para mobilizar apoiantes e recolher fundos. "Tal como o Churchill soube usar a rádio para chegar às pessoas e Kennedy a televisão, Obama foi o primeiro a usar eficazmente a web 2.0", ou seja, a web mais interactiva, diz o deputado do CDS-PP. O seu partido seguiu a dica e lançou-se no Twitter e no Facebook. Mas nem só de política se fazem as redes sociais e Pedro Mota Soares acabou por encontrar colegas da escola e da faculdade que já não via há anos.
Ideal para "saltibancos"
O que para alguns são efeitos colaterais, para outros são as principais razões para aderir. Luciana Larcher, de 31 anos, já é uma veterana: tem conta no Facebook há dois anos. A mil à hora, enquanto procura um café com Internet para se ligar, explica que passou a vida a saltitar de um lugar para outro, que tem amigos espalhados por todo o mundo, e que por isso começou a receber convites para se juntar à rede antes de se falar dela por cá.
"Enquanto crescia, vivi em Portugal com os meus avós, em Angola com o meu pai e em Moçambique com a minha mãe. E quando mudava nunca ficava no mesmo liceu nem apanhava as mesmas turmas. Depois trabalhei em Inglaterra numa residência de estudantes de inglês por onde passavam pessoas de todo o mundo". Agora, que finalmente assentou por cá, vende viagens numa agência de turismo.
Já sentada em frente ao computador, exemplifica o que estava a dizer. Faz aparecer a sua página e mostra os amigos que estão online: "Este é brasileiro, este mexicano, este italiano, e nos contactos tenho moçambicanos, angolanos, sul-africanos, japoneses e por aí fora. Tenho 250 amigos e conheço todos. Há muitos com quem não falo regularmente mas saber que não perdi completamente o contacto com eles, saber como estão, é reconfortante."
Adora ver as fotografias dos amigos e ser surpreendida quando encontra imagens suas nos álbuns deles: "Há pouco tempo vi uma fotografia do Carnaval de 91, comigo mascarada de bebé, que nem sabia que existia." Para Luciana, estas surpresas têm um senão: "Ao mesmo tempo é uma invasão de privacidade. Ninguém me pediu autorização..." Pesados os prós e os contras, não fica muito incomodada porque as vantagens superam as desvantagens.
"O Facebook é uma montra"
Visibilidade é exactamente o que João Bettencourt Bacelar procura no Facebook. Mas para o seu trabalho. Criativo numa agência de publicidade, tem cerca de 60 álbuns com trabalhos de fotografia e ilustração disponíveis na rede e essa exposição já lhe valeu algumas propostas: "As pessoas viram as minhas galerias, gostaram e contactaram-me. O Facebook é uma montra, em que cada um mostra o que quer. Eu mostro o que faço profissionalmente."
Aos 36 anos é presença assídua no Facebook, mas sem uma rotina de consulta. "Não tenho horas marcadas e sou capaz de estar uma semana sem lá ir". Vai o suficiente para juntar na sua rede cerca de mil contactos, entre amigos, amigos dos amigos e pessoas que vêem as suas fotografias ou ilustrações e lhe enviam pedidos de amizade. Para responder à pergunta quantos conhece pessoalmente tem de pensar um bocado: "Uns 300 ou 400."
Depois de os amigos aderirem é difícil resitir. Conta que há uns meses um amigo que recusava inscrever-se foi "vítima" de uma campanha. "Movimento para o Pedro Coriel no Facebook", assim se chamava o grupo que durante dias massacrou o Pedro com razões para se juntar àquela rede. Como isso não resultou começaram a avançar possibilidades, algumas escabrosas, para justificar a recusa. Tão provocatórias como chamar-lhe nomes ou dizer que tinha medo do que se podia descobrir. Ao fim de um tempo, a pressão deu frutos.
Agora faz parte dos cerca de 90 mil utilizadores doFacebook em Portugal, segundo o jornalista Paulo Querido, que acompanha a área com atenção. Ou seja, menos de um por cento dos portugueses tem conta no site. O hi5 ainda é provavelmente a rede social com mais utilizadores no País, mas muitos estão a migrar. E muitos que andavam fora deste mundo, mais velhos, estão a aderir ao Facebook. "O hi5 está minado de adolescentes. O Facebooké uma rede mais séria e mais adulta", diz João, em jeito de justificação.
Não foi só em Portugal que o número de utilizadores disparou - a nível mundial também. Em Janeiro o Facebook tornou-se a rede mais popular, ultrapassando o MySpace, muito usados nos Estados Unidos; enquanto o Twitter subiu do 22º para o terceiro lugar durante o último ano.
"Pertencer às tribos"
Pedro Rocha, de 27 anos, está nas duas. E não só: participa também no LinkedIn, uma rede mais vocacionada para o mundo profissional, onde mantém um perfil mais institucional, e no Qype, vacacionada para partilhar críticas a restaurantes, bares e eventos.
O portuense considera que as redes sociais e elas são fundamentais para o seu trabalhonalisar tendências. No Facebook há um ano, passa pela página uma ou duas vezes por dia. Já no Twitter, o acompanhamento é continuo, reconhece.
Gosta de "pertencer às tribos", diz. "A informalidade e manter um lado amador também é importante: sigo desde gurus do marketing a amigos". Seguir, no Twitter, significa receber numa página as mensagens dessas pessoa. Todas limitadas a 140 caracteres. Pedro segue cerca de 500 pessoas e é seguido por mais de 300. Na sua página há mensagens de "bom dia", as músicas que se estão a ouvir ou discussões variadas.
Ao constrário do Twitter, dos cerca de 170 amigos que tem no Facebook acha que conhece cerca de 80%. Tem a vantagem de que quando fazemos perguntas à pessoas, mesmo profissionais conceituados, eles geralmente respondem porque há uma vontade grande partilhar". Dessa forma já trocou opiniões com algumas das estrelas da sua área. Aliás, Pedro considera que a "sociedade 2.0 não é sobre o que consegue obter, é sobre o que se consegue partilhar".
O que é que isto significa na prática? Que nestas redes sociais, geralmente quanto maior o investimento maior o retorno. Se a presença for activa há mais visibilidade.
O sociólogo Gustavo Cardoso, director do Observatório da Comunicação (OberCom), explica que "o grande sucesso das redes online deve-se ao facto de permitirem atingir determinados objectivos, nomeadamente manter contacto com muitas pessoas, com custos muito baixos: quer a nível de tempo quer de dinheiro".
Por outro lado, permite manter relações com pessoas com quem de outra forma perderíamos o contacto. O objectivo é o mesmo de sempre: comunicar. "Enquanto seres humanos somo seres sociais, comunicamos. Mas vamos estruturando o nosso modo de vida de acordo com a tecnologia existente".
Que efeitos é que tem esta nova tecnologia no nosso dia-a-dia? "Todos os estudos nos últimos 15 anos indicam que o que acontece é que comunicamos mais vezes com as pessoas com que já falavamos". Ou seja, segundo o professor do ISCTE, na maior parte dos casos, os utilizadores não procuram falar com pessoas que não conhecem - "eventualmente, com amigos de amigos, mas isso também fazemos no quotidiano".
Luciana confirma a teoria. Pelo menos em parte. "Agora só aceito pedidos de amizade de pessoas que conheço. Quando era mais miúda falava com mais pessoas... quando estava em Inglaterra lembro-me de meter conversa com um rapaz aqui em Portugal, acho que no hi5, e de acabarmos por ter uma relação. Eu ainda vim cá ter com ele e ele ainda foi lá, mas sobretudo faziamos companhia um ao outro. Claro que começou no hi5, mas rapidamente passou para e-mail e para messenger".
Gustavo Cardoso lembra que os jovens, atraídos pela novidade e mais dados a experimentar, são geralmente os primeiros a aderir às novas tendências. Agora, estamos numa fase em que os adultos também aderem: porque a utilização da internet também se está a generalizar e por causa da possibilidade de encontrar pessoas, avança.
O 'buzz' e o hambúrguer
Paulo Querido, jornalista na área da tecnologia, faz parte da "elite" que segue tantas pessoas como as que o seguem no Twitter: cerca de 2300. Essa base constrói-se com uma presença constante - mais de oito mil mensagens-, o domínio da tecnologia e o gosto pela troca de ideias.
Está portanto numa posição privilegiada para analisar o boom da rede. "Disparou no final de Dezembro, com a chegada de muitos nomes da blogosfera mais conhecida. O Nuno Markl percebeu em Janeiro para que é que aquilo servia e em pouco tempo juntou mais de quatro mil seguidores. E nas últimas duas semanas assistimos à chegada da blogosfera pesada, mais renitente, como Francisco José Viegas. Neste momento, é onde está o buzz".
Até a Presidência da República reconheceu esse interesse e criou uma conta no Twitter. A chegada foi amplamente noticiada e a Presidênciajá tem mais de dois mil seguidores. Alguns como Pedro Rocha, não escondem a desilusão: "O que eles fazem é reproduzir a agenda oficial. Ou seja, estão lá mas não sabem usar aquilo".
Melhor utilização fez a jornalista Alberta Marques Fernandes, da RTP. Ao longo da última semana a história de uma troca de mensagens que acabou com um dos utilizadores a levar um hamburguer à pivot foi notícia em vários meios de comunicação "mais tradicionais". É que a conversa começou no Twitter e acabou com a jornalista da RTPN a fazer um sinal com uma caneta enquanto apresentava o telejornal para mostrar que tinha recebido a oferta. Para contentamento dos "twitter" e telespectadores que foram seguindo as peripécias.
Fase dos três nomes
Paulo Querido também tem conta no Facebook, mas confessa que ainda não percebeu bem o que pode fazer ali. "É mais adequado à sociabilização e à partilha -dos filmes favoritos, à formação de grupos com os mesmos interesses "
Mesmo assim assinala um fenómeno interessante. "Em Portugal, o Facebook está na fase dos três nomes", diz. "Nunca tinha visto nada assim, está a ficar cheio de pessoas com três apelidos", explica - no sentido em que são pessoas de um estrato socio-económico mais elevado, que não prescindem de dois apelidos quando se inscrevem.
"Isso e a quantidade de jornalistas que aderiram recentemente, como Henrique Monteiro (director do Expresso) ou Paulo Pinto Mascarenhas, confere-lhe visibilidade fora do meio."
Moda que veio para ficar
Ninguém nega que as redes sociais estão na moda, mas para Paulo Querido esta é uma moda que veio para ficar. "Já nem sequer é tendência porque já é mainstream, mas ao mesmo tempo é uma moda porque é aquilo de que falamos agora. Muito mais do que dos blogues por exemplo e nunca houve tantos. Tem o factor novidade, desperta a curiosidade de muita gente".
O director do OberCom, Gustavo Cardoso, lembra que há um poderoso motivo para as redes sociais na internet não passarem de moda: elas sempre existiram. Na nossa vida vamos construindo a nossa rede, que inclui familiares, amigos, colegas de escola e de trabalho, embora não haja essa noção estruturada na nossa cabeça, explica. Por isso, "o Facebook pode perder popularidade e desaparecer mas as pessoas vão migrar para outra rede e continuar a juntar-se online", diz.
Paulo Querido lembra que as "próprias redes evoluem. "O hi5, por exemplo, é uma rede mais antiga que não evoluiu muito e está a perder protagonismo. O Facebook é uma rede de segunda geração, já permite construir aplicações. O Twitter é incrivelmente simples e permite gerar debates que duram dois ou três dias". A evolução é portanto o caminho para sobrevivência.
Para o professor do ISCTE, embora existam milhares de redes, algumas com objectivos muito específicos, a especialização não é um caminho óbvio, já que quando as redes optam por ir por aí, correm o risco de se fechar e acabar por definhar.
O caminho é continuar a inovar, diz Paulo Querido, já que a Internet premeia as ideias originais. E incluir as tecnologias que vão surgindo.
À medida que os telefones são capazes de apontar a nossa localização através do GPS e das redes sem fios, é só uma questão de tempo até podermos entrar num bar ou numa festa e recorrer ao telemóvel para saber se alguém na sala partilha os nossos interesses ou faz parte das nossas redes, diz Nuno David, professor e investigador do ISCTE atento à área das redes. Alguns serviços do iPhone e da Google já vão nesse sentido e o futuro das redes sociais vai passar por aí, conclui. |
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