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PATRÍCIA JESUS
Educação. O que pensam os futuros docentes das actuais batalhas no sector
Quando começaram o curso de Educação de Infância, Tânia Furtado e Sofia Godinho foram brindadas com um elogio em tom de aviso: "Parabéns por terem escolhido esta carreira, porque como as coisas estão é um acto de coragem."
Cinco anos depois, e meses antes de entrarem no mercado de trabalho, as duas olham com apreensão para o cenário que as espera na educação. Um sector em convulsão, marcado por um arrastado braço-de-ferro entre os sindicatos de professores e a ministra Maria de Lurdes Rodrigues por causa do novo Estatuto da Carreira Docente, sobretudo pelo modelo de avaliação e pela divisão da classe em professores e titulares.
Mas para as duas estudantes da Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL) não há dúvidas: a avaliação é bem-vinda. O mesmo pensa Alexandre Fonseca, de 19 anos, aluno do segundo ano de Línguas Modernas, na Faculdade de Letras de Lisboa. "Quem tem medo da avaliação são os maus professores", brinca. O estudante reconhece que a frase é uma generalização grosseira e que há questões no processo que não fazem sentido, mas acha que "não é caso para tantos protestos".
Já Viviane Ascensão consegue apontar os problemas do processo de rajada, tão bem como qualquer sindicalista e com a mesma paixão. "Uma boa medida mal posta em prática", resume. Mas a aluna de mestrado da Faculdade de Letras também não hesita em afirmar que os docentes têm de ser avaliados: "Avaliem os professores, por favor! Porque há de facto problemas nas salas de aulas decorrentes da falta de preparação, conhecimento científico e interesse de alguns professores."
A licenciada em Português e Francês, docente sem colocação, não esconde a revolta por ser "uma das muitas cheias de vontade de trabalhar que estão fora do ensino". Por outro lado, acredita que "a grande maioria dos que lá estão queria estar a fazer outra coisa". É um jogo perverso mas tenta não antagonizar os colegas e até compreende o desânimo: "Estão cansados, enfrentam todos os anos turmas gigantes que não têm tempo de conhecer." Mesmo assim, a contestação na rua não a motiva. "É a união do desespero. Mas a luta é na escola, não é uma luta só por mim, é pelos alunos. E nas escolas falta solidariedade, é o salve-se quem puder."
O colega António Góis, de 38, futuro professor do ensino básico, também não tem "nada contra a ava- liação" mas teme que o processo contribua para tirar autoridade aos professores - "se ficarem dependentes dos alunos e dos pais". A questão da autoridade é a sua luta: "Antigamente tinham o poder todo e agora não têm nenhum."
Desemprego assusta
O que mais preocupa Tânia, de 29 anos, e Sofia, de 22, é mesmo a falta de emprego. Para as duas futuras educadoras de infância, o Estado deixou de ser a primeira opção. "Estagiei num colégio e as educadoras estavam todas muito descontentes", conta a mais nova. Mas a jovem não alinha completamente com os futuros colegas. "Nós falamos das exigências da profissão, mas quando ouvia as minhas colegas dizer 'estamos mesmo sem tempo, andamos a sair às cinco da tarde' ficava parva", desabafa. "E toda a gente é avaliada no emprego. Não vejo qualquer problema."
Mas é complicado dizer isso a quem nunca trabalhou no privado, acrescenta a amiga. "É preciso respeito e tacto quando se quer mudar as coisas", diz Tânia, que tem esperança de encontrar colocação - "não no Estado... não a ganhar muito".
Encontrar trabalho também é o principal problema de Soraia Fernandes, de 18 anos, aluna do primeiro ano de Educação Básica na ESEL. As lutas dos professores são "um bocado desmotivantes", mas não o suficiente para a fazer desistir do sonho de infância. "Regalias, horas, férias, isso não interessa desde que tenha emprego", diz.
Sofia confessa-se impressionada. "Nunca vi a classe com tanta força, com toda a vontade, chegou-se a um limite. A vantagem é que quando todos dizem que se bateu no fundo não há outro caminho a não ser melhorar." É essa a esperança dos milhares de universitários que ainda não desistiram de ser professores. |
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