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Manuel Coelho diz que PCP está "esclerosado" e é "reaccionário"

por

ANA MARQUES, Sines

MIGUEL A. LOPES-LUSA  

Cisão. Autarca de Sines põe fim a 35 anos de militância comunista

Depois de um ciclo de "acusações absurdas, idiotas e insuportáveis", que se adensaram nos últimos meses, o presidente da câmara municipal de Sines, Manuel Coelho, eleito pela CDU há três mandatos consecutivos, anunciou ontem, a sua desvinculação do PCP.

O autarca, militante do Partido Comunista Português há 35 anos, diz-se "exausto" e vítima das "sucessivas práticas de cerco e tentativas de obstrução a tudo o que não esteja de acordo com os cânones do partido e o acolhimento dos responsáveis locais".

"O partido está impregnado de um conjunto de características típicas de organizações dogmáticas, com disciplina de caserna, o que o torna numa organização estalinizada, esclerosada, com práticas reaccionárias, envolvidas num discurso pretensamente progressista, mas de facto, retrógrada", acusou o presidente sineense, em conferência de imprensa.

A 'gota de água' deu-se aquando da assinatura do contrato de execução entre o Ministério da Educação e a câmara municipal, decisão essa que vai contra as orientações nacionais do PCP, e desde logo foi considerada como uma afronta.

"Sobre isto, ainda me aconselharam a ter uma atitude trapaceira, dando o dito por não dito, e voltando atrás com a minha decisão, mas não aceitei", garantiu.

Com o caso, "atingiu-se um clima de esquizofrenia política" e desencadeou-se todo um processo de perseguição e "desacreditação do presidente", que contou com a colaboração do vice-presidente da autarquia, Albino Roque, também eleito pela CDU, destituído do cargo ontem, em reunião extraordinária de câmara.

Manuel Coelho transferiu todos os pelouros atribuídos a Albino Roque, distribuindo-os pelos restantes vereadores comunistas seus apoiantes, justificando que o ex vice-presidente tinha "uma actividade de seguidismo militante" e já não reunia condições de lealdade para continuar a fazer parte da sua equipa.

Nos últimos tempos, o autarca afirma ter vivido num permanente "ambiente de suspeição" por parte do partido, que chegou a questionar a sua participação em "cerimónias com o senhor primeiro-ministro", o significado das suas entrevistas sobre o interesse dos investimentos feitos em Sines, ou o porquê do convite ao Presidente da República, Cavaco Silva, por altura da inauguração do Castelo.

"O PCP entende que é dono das coisas e que temos que ter uma subordinação cega e acéfala às estratégias nacionais e o resto são instrumentos ao seu serviço, mas eu não concordo", apontou Manuel Coelho, que já garantiu que não vai colocar o cargo à disposição.

Renunciar, sustenta o autarca, significava dar razão ao PCP, que "defende que o lugar é do partido". "Fui eleito pelo povo e é ele o principal responsável pela expressão eleitoral conseguida e não os vou defraudar em nome de uma tese partidária", assegurou.

O autarca desavindo frisou ainda que a sua decisão não pretende ser "um passaporte para o ingresso em qualquer partido ou organização do quadro actual do país", vincando que apenas se quer "sentir livre" para poder "agir politicamente" de acordo com a sua visão e "convicções". |


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