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</p><p>Mário Soares
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UM IMPULSO INOVADOR

por

Mário Soares  

1. A posse de Barack Obama foi um espectáculo excepcional, reproduzido até à exaustão, em todas as televisões do mundo. A nossa não foi excepção. Alguns comentadores iam não só traduzindo o memorável discurso de Obama - tarefa útil para quem não sabe inglês - e, ao mesmo tempo, recheando-o dos seus comentários, próprios e dispensáveis, como se algum dos telespectadores se interessasse por eles. Houve mesmo um, se me lembro bem, que se atreveu a criticar o discurso, tão bem construído e proferido, com tanta humildade e contenção, considerando-o "banal". Imagine-se! Um discurso que prometeu o início de uma "nova era" para os Estados Unidos e uma total ruptura com as políticas de Bush, tanto internas como externas. Ou seja: uma revolução pacífica, legitimada pelo voto esmagador dos americanos, que, a seguir ao discurso, numa sondagem que se fez no momento, se declararam 84% de acordo com Obama...

As expectativas são, efectivamente, enormes, como os desafios, os problemas e as dificuldades que o esperam. Os americanos - e o resto do mundo - esperam imenso deste homem de 47 anos, afro-americano, de rara preparação e lucidez, que tem uma visão humanista, unitária e patriótica para a América, é um adepto da paz e do diálogo entre os povos, dos direitos humanos, proibindo formalmente (como já fez) a tortura, indicando que dentro do máximo de um ano fechará o campo de concentração de Guantánamo e que começarão a sair as tropas americanas do Iraque.

Repare-se que a nova política externa vai ser para Obama uma dor permanente de cabeça e também, obviamente, para a sua equipa, aliás, em si mesma de concepções algo diferenciadas. Mas a unidade, irá fazê-la Obama com as decisões que irá tomando.

Indiquemos, em estilo telegráfico, os pontos mais quentes: o conflito israelo-palestiniano, que depois da "guerra inútil", que devastou a Faixa de Gaza e provocou um autêntico morticínio entre inocentes e, sobretudo, crianças, deixou atrás de si um lastro de ódio contra Israel, que dificilmente desaparecerá nos tempos mais próximos; o Afeganistão, onde a NATO se está a afundar aos poucos e a guerra prossegue implacável; o Irão, que, felizmente, não chegou a ser atacado, como Israel queria, mas cujas negociações vão ser extremamente complexas; o Líbano, onde a situação continua a ser tão precária depois de outra "guerra inútil" que só deixou devastações e ódios; a luta contra o terrorismo, que tantos prejuízos causou durante os mandatos de Bush, que nunca conseguiu - antes pelo contrário - saber onde se situa a Al-Qaeda e isolar Ben Laden; e, depois, as relações com a Rússia e com a China, países emergentes e credores dos Estados Unidos; a dramática situação em que se encontra África, com tantos focos de violência; e as novas relações a criar com a América Latina, em fase acelerada de transição, sem esquecer o bloqueio a Cuba, que se espera termine; o novo impulso a dar às relações euro-americanas, de modo a minorar as sequelas deixadas, nesse relacionamento, por Bush; a melhoria fundamental das relações com a ONU, com as agências especializadas e com as organizações económicas internacionais (Banco Mundial e FMI, que deverão ser democratizadas e integradas na ONU), etc.; etc.

Contudo, passando da política externa para a interna, a necessidade de ruptura com o passado não é menor e da descoberta de novos caminhos e novas políticas. Em matéria ambiental, especialmente, onde se espera que os Estados Unidos subscrevam rapidamente os Acordos de Quioto. Mas, acima de tudo, obviamente, fazer frente à crise. Obama tem um plano de investimentos em obras públicas e privadas que criem rapidamente novos postos de trabalho, quando o desemprego constitui o maior dos flagelos para os Estados Unidos. Já entrou em negociações com os sindicatos, com a ideia de lhes dar mais prestígio e protagonismo na sociedade americana e de os responsabilizar no impulso para a criação de uma nova sociedade, mais equitativa e democratizada. Quer, além disto, como disse, "pôr mais dinheiro nos bolsos dos americanos", acabar com os lobbies organizados que exercem pressão, em favor de interesses privados, junto de congressistas e políticos, prática até agora legalmente autorizada e causa principal de grande corrupção...

Finalmente, declarou-se contrário aos paraísos fiscais e às offshores, pelas suas práticas sigilosas - e nada transparentes -, por onde passaram todos os grandes escândalos financeiros que agora têm vindo, uns atrás dos outros, a aparecer à luz do dia...

Antes que tenha passado uma semana completa sobre a sua posse, teremos de reconhecer que Barack Obama está a andar muito rapidamente, sem dar tempo aos adversários - e aos comentadores - para organizarem, concertadamente, as suas críticas e eventuais ataques. A União Europeia - e, sobretudo, os políticos que a dirigem - parece não se ter ainda apercebido completamente da "revolução coperniciana" que está em curso na América. Não reagem e parecem estupefactos perante a avalanche das surpresas e das ideias que chegam da América. Serão eles (dirigentes) capazes de acertar o passo e de mudar as suas velhas rotinas?

De qualquer modo, o povo europeu, disperso pelos 27 Estados membros, parece estar contente e regozijar-se com o que sucede na América. Será que as próximas eleições para o Parlamento Europeu - através dos diferentes partidos europeus - vai tomar tudo isto em conta e proceder em conformidade? Se assim for, a esperança no futuro voltará a animar a União Europeia...

2.A "guerra inútil" de Israel contra o Hamas e a Faixa de Gaza cessou da mesma maneira insólita e inesperada como começou. Dir-se-ia que o Governo de Israel, na véspera de eleições gerais - e talvez para as preparar - aproveitou o vazio de poder na América do Norte para tentar, por razões que não se entendem, repito, quebrar as pernas ao Governo do Hamas, um Governo democraticamente eleito, em eleições internacionalmente reconhecidas pela comunidade internacional.

Como é possível que isto aconteça, no espaço de poucos anos, por duas vezes, por forma completamente unilateral e sem que a comunidade internacional manifeste, unanimemente, a sua indignação? Sobretudo, partindo a vontade agressiva de um povo que foi ele próprio vítima do Holocausto e que agora se permite provocar centenas de vítimas inocentes e, entre elas, matar uma grande maioria de crianças.

A Europa, paralisada por antigos complexos de culpa, praticamente não reagiu, usando tão-só a costumada retórica mas sem tomar medidas práticas de condenação efectiva. Vai talvez ajudar a pagar os custos das devastações provocadas. É pouco. Porque a sementeira de ódios que Israel provocou vai agravar tudo, quando chegar a hora de as partes envolvidas se sentarem de novo à mesa das negociações...

3.Um homem estruturalmente bom. Fernando Amaral, ilustre advogado, deputado às Constituintes, presidente da Assembleia da República (1984-87), ministro da Administração Interna e ministro adjunto do primeiro-ministro, respectivamente, nos VII e VIII Governos Constitucionais, vice-presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, estadista e homem público impoluto, foi no domingo passado a enterrar, na terra onde nasceu, Lamego, em torno de uma pequena multidão de amigos e admiradores, que suportaram o frio intenso, o vento, a neve e a chuva, para lhe prestarem uma última homenagem.

Fernando Amaral era uma personalidade encantadora, de uma elegância moral rara e de uma probidade exemplar. Membro fundador do então PPD, de Francisco Sá Carneiro, mais tarde PSD, era um homem de convicções e de uma abertura de espírito excepcional. Foi um dos grandes estadistas da nossa II República, apesar da sua discrição pessoal e modéstia.

Sempre o admirei profundamente. Segui com a maior atenção o seu percurso político, sem mácula. Tornámo-nos amigos, próximos, apesar de adversários políticos. E amigos do coração. |


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