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por
Fernanda Câncio
Jornalista - fernanda.m.cancio@dn.pt
O primeiro-ministro anunciou, enquanto secretário-geral do PS, que na sua moção para o próximo congresso do partido propõe a legalização do casamento civil das pessoas do mesmo sexo. O anúncio teve lugar domingo passado. O assunto foi objecto de destaque nas notícias, nomeadamente quanto à hipótese de essa legalização incluir ou não a possibilidade de adopção. Esse destaque não resultou, no entanto, naquilo que normalmente se segue ao anúncio de uma medida considerada polémica: não houve declarações inflamadas da oposição (nem à esquerda nem à direita), nem debates na TV com gente contra e a favor. Os representantes das associações LGBT, que deviam ser disputados em noticiários televisivos, não deram sinal de vida na pantalha - à excepção da TVI, ninguém os chamou. Nem a sempre instantaneamente excitada blogosfera deu sinal de indignação. Será que afinal a medida é pacífica?
Claro que lá apareceu, ao segundo dia, a reacção da Igreja Católica: o patriarca terá dado indicações no sentido de se falar do assunto nas homilias e o porta-voz da Conferência Episcopal (CEP) insurgiu-se contra o anúncio "numa altura em que o País atravessa uma crise económica e tem outras prioridades". Estas reacções, como se de um picar de ponto se tratasse (afinal, o presidente da CEP, o bispo Jorge Ortiga, já admitira em 2008, numa entrevista a Constança Cunha e Sá, na TVI, encarar a legalização do casamento civil entre as pessoas do mesmo sexo como uma inevitabilidade), surgem desfasadas da prioridade que ainda o mês passado, já em plena crise económica do Ocidente, o Papa deu ao tema, considerando-o uma ameaça à "ecologia do homem".
Como interpretar tanta serenidade? Trata-se da aceitação tácita de algo que não se pode evitar (no caso daqueles que se lhe opõem) e a que se deseja, como a todas as derrotas, retirar importância, ou uma quietude táctica, a de quem procura guardar o assunto para quando puder ser usado como arma de arremesso eleitoral, até porque sabe que quanto mais este for discutido menos hipóteses tem de justificar a sua oposição? Certo é que esta quietude, esta aparente bonança, só pode ser ilusória: há muita gente a quem, como candidamente admitiu esta semana num debate no Rádio Clube Português um médico-bloguer, o casamento entre pessoas do mesmo sexo "faz confusão". Justificá-lo é que é pior. Melhor, pois, transformar a coisa numa espécie de tabu.
Só um tabu permite silenciar o facto de o casamento entre pessoas do mesmo sexo ser legal em vários países há anos, e de essa legalização ter sido, na maioria dos casos, aprovada por partidos do centro. Só um tabu sustenta o argumento do desespero, o de ser preciso impedir o casamento porque "a adopção vem a seguir", "e não se pode fazer experiências com crianças": na Europa, o Reino Unido, a Islândia, a Noruega e a Suécia legalizaram a adopção sem casamento, e França, Dinamarca e Alemanha permitem, em uniões de facto do mesmo sexo, que um parceiro adopte os filhos biológicos do outro. Só um tabu protege um tabu - e adia a conclusão óbvia: o povo é sereno.
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