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Um filme para redescobrir "o homem que dava pulos"

por

MARIA JOÃO CAETANO  

Documentário. Filme sobre Nuno Bragança integra nova colecção de DVD

Amigos recordam as múltiplas facetas do autor de 'A Noite e o Riso'

A primeira ideia de João Pinto Nogueira era fazer um filme a partir do conto O Imitador, de Nuno Bragança. Mas as habituais dificuldades de financiamento foram adiando o projecto e, verificando as coincidências entre a ficção e a vida do escritor, o realizador acabou por perceber que se calhar a vida de Nuno Bragança daria um outro filme. E foi assim, entre pesquisas, leituras e entrevistas que se prolongaram pela última década que foi nascendo U Omãi Qu Dava Pulus. O filme foi terminado no ano passado e exibido no DocLisboa. Agora, é editado em DVD pela Midas, com outros três documentários sobre escritores.

O título refere-se a uma passagem de A Noite e o Riso, a primeira e mais celebrada obra de Nuno Bragança, publicada em 1969 e, em grande medida, inspirada na sua vida. Ou, pelo menos no que toca à parte da infância e da adolescência do protagonista, à vida que ele gostava de ter tido, como explicam os amigos e familiares.

Hiper-protegido, o pequeno Nuno não frequentou a escola, não brincava na rua com as outras crianças, no futebol só podia jogar a guarda-redes para não se aleijar e tinha sempre consigo a mãe preocupada com as correntes de ar. Só aos 15 anos, com a ida para o liceu, o já jovem Nuno se confrontou com o mundo.

Fascinado pelo bas-fond e pelo submundo lisboeta, Nuno Bragança aliava as suas origens aristocráticas e um catolicismo radical e vivido no dia-a-dia com uma procura de experiências limite, através do boxe, da noite, do álcool, do desafio às autoridades. E da escrita também. Personagem multifacetada, talvez nenhum amigo o conhecesse por inteiro, cada um com uma imagem diferente do escritor, como o comprovam os testemunhos de João Bénard da Costa, seu companheiro em O Tempo e o Modo, e Eurico Figueiredo, figura destacada do Partido Comunista que conseguiu sair do país graças à ajuda de Nuno Bragança (aventura que seria relatada na Directa).

A actividade política na clandestinidade, durante o Estado Novo, e a colaboração com as Brigadas Revolucionárias, depois do 25 de Abril, revelam o empenho de Bragança que, apesar disso, nunca quis qualquer cargo nem ambicionou poder.

Essencialmente um ficcionista, Nuno Bragança morreu em 1985. Escreveu, além de A noite e o riso, os romances Directa e Square Tolstoi, uma recolha de contos, Estação, e uma novela Do fim do mundo, publicada postumamente. Além da literatura, também o cinema o tentou: uma vez como argumentista, em Os verdes anos, de Paulo Rocha, e outra co-realizando com Gérard Castello-Lopes e Fernando Lopes o filme Nacionalidade: Português. Todos eles dão o seu testemunho neste filme.


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