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Artista defende obra que escandalizou Bruxelas

por

LUÍS NAVES  

União Europeia. Autores nacionais eram todos falsos

Checo David Cerny diz ao DN que o trabalho não "é declaração política"

O escultor checo David Cerny defendeu ontem, em declarações ao DN, aquilo que definiu como o seu "conceito artístico". Cerny é o autor da escultura Entropa, encomendada pela presidência da UE, a cargo da República Checa, e que está a causar viva polémica em Bruxelas.

A encomenda visava discutir preconceitos vigentes em relação a cada um dos Estados membros da UE, englobando 27 obras de artistas dos diferentes países. No entanto, Cerny ignorou o acordo e produziu a escultura com as suas ideias (com ajuda de colaboradores) inventando os autores nacionais. O trabalho custou 50 mil euros à presidência checa.

Entropa imita os jogos de modelagem, com as peças de montar destacáveis presas numa grelha. A peça portuguesa é uma tábua de bifes, onde a carne tem a forma das ex-colónias (Brasil, Angola, etc.). O estereótipo era o colonialismo e a autoria pertencia a uma inexistente Carla de Miranda.

Tal como DN noticiou na sua edição de ontem, não apenas Carla de Miranda não existe, mas o seu currículo foi copiado de uma escultora real, Beatriz Cunha.

Confrontado pelo DN com este facto, Cerny desvalorizou: "Sou o autor de todo o conceito, mas convidei vários artistas para colaborarem comigo. Não trabalhei nessa parte das identidades falsas [dos escultores europeus]. Usar o currículo de outra pessoa é uma questão menor. Um currículo não diz nada."

Cerny, de 41 anos, é conhecido pelas suas provocações artísticas. Uma obra, Tubarão, ficou famosa após ser banida na Bélgica e Polónia. A instalação mostrava um boneco de Saddam Hussein enforcado, dentro de uma caixa de formaldeído. Outra ideia foi bebés gigantes a subirem uma torre de televisão.

Ao DN, o autor esclareceu que fez um trabalho de arte, não uma "declaração política". Mas algumas das interpretações nacionais são polémicas. A Bulgária protestou oficialmente e muitos funcionários alemães da UE ficaram escandalizados.

Este caso surge após várias gaffes da Presidência checa da UE. Anteontem, o vice-primeiro-ministro checo, Alexandr Vondra, culpou David Cerny e admitiu que o seu governo "ponderava o passo seguinte".

Cerny disse que não pretendera ofender e que produzira uma "brincadeira". Ontem, o escultor não sabia se o governo ia manter a escultura até 30 de Junho no átrio do edi- fício Justus Lipsius, sede do Conselho Europeu, em Bruxelas.


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