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por João César das Neves
A recente crise tem revelado muitos e graves vícios morais por parte de altos responsáveis económicos. Mas o aspecto realmente interessante é avaliar o sentido ético do próprio sistema. Na sua natureza profunda, o capitalismo é bom ou mau?
A visão comum é negativa. Toda a gente, não apenas mas sobretudo nestes períodos de turbulência, repudia e acusa um regime centrado no dinheiro, risco e lucro. Podemos simbolizar essa atitude num texto que agora celebra 35 anos.
Foi em Janeiro de 1974, meses antes da revolução, que Álvaro Cunhal publicou na revista Problemas da Paz e do Socialismo o artigo "A superioridade moral dos comunistas". O texto soa hoje estranho, com a sua ética de classe, partido e revolução. Mas muita gente concorda ainda com a descrição dos "sentimentos e comportamento moral da burguesia: individualismo e egoísmo ferozes, indiferença pela sorte dos seres humanos, rapacidade, venalidade, completa falta de escrúpulos, redução a simples mercadorias dos valores culturais e espirituais" (n.º1).
As coisas porém mudaram em 35 anos. Se Cunhal insulta uma entidade estranha ao seu mundo comunista, os actuais críticos pertencem de alma e coração ao sistema. Burgueses dos quatro costados, participam com empenho no regime, mercado e emprego. Os lamentos actuais incluem pois, uma transposição curiosa. Neles, os "egoístas ferozes, rapaces e venais" não são todos os burgueses, mas um grupo indefinido de maus, que supostamente define o capitalismo e nada tem a ver com os agentes económicos comuns que fazem (e criticam) a realidade do processo.
A maior parte das censuras ao actual mecanismo económico nasce de um equívoco: a ignorância da dureza pré-capitalista. As críticas partem da comparação, necessariamente mítica e injusta, daquilo que é com o que devia ser. Assim se perdem de vista os incríveis ganhos que a livre troca e iniciativa trouxeram à humanidade. Os notáveis avanços na saúde e comunicação, conforto e arte, cultura e liberdade, que tantos vêem como direitos, são inseparáveis do capitalismo. Acima de tudo são incríveis os ganhos na redução da pobreza. A população mundial na situação de carência (menos de 1,25 dólares por dia) caiu de 35% do total para menos de 26% nos últimos dez anos. Isso significou arrancar à miséria 50 milhões de pessoas por ano. Quem fez isto não foi a ajuda ao Terceiro Mundo, a caridade cristã ou a sociedade socialista, mas a entrada na economia de mercado pela globalização.
Estes ganhos, que uma cegueira ideológica de jornais, discursos e programas escolares teima em esconder ou relativizar, pesam muito a favor na avaliação ética do sistema. Claro também que ele está longe de ser o paraíso na Terra e vem cheio de defeitos, injustiças, turbulências, crises e degradações. Não há almoços grátis. Mas poucos estariam dispostos a voltar atrás, rejeitando aspirinas, papel higiénico, automóvel, frigorífico e telefone. Estas coisas não são possíveis sem dinheiro, risco e lucro. Muitos tentaram alternativas, de Lenine a Cunhal, Fourier a Perón, mas falharam redondamente. O capitalismo, como a democracia anexa, permanece o pior dos sistemas, exceptuando todos os outros.
Apesar disso é inegável que ele suscita profundas críticas e fúrias. Essa cólera é justa mas errónea, pois parte de certezas confusas e exageradas. Porque a desigualdade de riqueza interna desceu, não subiu com o progresso; não há "capitalismo selvagem" num Estado de direito; o suposto "neo-liberalismo" é o regime em que lei e governo mais poder e interferência têm; o mercado financeiro constitui a entidade mais regulada e vigiada da humanidade (nem sempre da forma adequada, como se vê).
Não é aí que está a verdadeira crítica ao sistema capitalista. O mal não é externo e estrutural, mas interior: "Onde estiver o teu tesouro aí estará o teu coração" (Mt 6, 21). O problema é que o sucesso do capitalismo pôs-nos a todos debaixo da terrível maldição do camelo e da agulha: "Ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação!" (Lc 6, 24).|
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