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ABEL COELHO DE MORAIS
Instrumento. É a mais recente tendência em matéria de contestação, do Iraque à Ucrânia. Mas também um instrumento na caminhada para o poder, como símbolo de figuras políticas (por todos os motivos) e pode até sugerir a aproximação inter-religiosa. O sapato é uma arma grande
Muito mais vale um par de sapatos do que se pode imaginar
O jornalista iraquiano Nuntader al-Zaidi, com a sua tentativa de agredir o Presidente George W. Bush dia 18 em Bagdad, veio lembrar a importância do sapato.
Se Zaidi é o herói do momento, o precursor do sapato como arma política foi Nikita Kruchtchev, o líder soviético que, em Outubro de 1960, bateu com um dos seus sapatos no tampo da secretária da sua delegação durante a Assembleia Geral da ONU. O episódio custou uma pesada multa a Moscovo por quebra do protocolo diplomático, mas mostrou o poder de um sapato na mão de um homem determinado. Como determinado esteve Barack Obama na sua caminhada para a Casa Branca. E se Obama nem teve tempo para se descalçar, Paul Wolfowitz não se devia ter descalçado quando era presidente do Banco Mundial, em 2007. Se a sua reputação não podia ser boa, com buracos nas peúgas, aquela não melhorou em nada. Se o sapato pode ser um aliado, também se pode revelar um terrível inimigo.
Quem se descalçou também foi o Papa Bento XVI, ao visitar a mesquita de Hagia Sophia em Istambul, trocando os Prada de que sempre se fala por umas discretas pantufas numa metáfora à aproximação entre religiões.
Quem não esteve inclinado ao diálogo foi o jornalista ucraniano Ihor Dmitriv, que lançou um sapato ao académico que, no passado dia 20 em Odessa, defendia a aproximação do país à UE e à NATO. Para Dmitriv, "os sapatos vão ser um grande meio de influenciar os nossos dirigentes".
Para influenciar a sua altura, Nicolas Sarkozy recorre a uns sapatos com uns singelos saltos de cinco centímetros. Podem não estar na moda, mas cumprem o seu dever. Na moda estiveram, de certeza, alguns dos 3500 a 5000 pares de sapatos da antiga primeira dama filipina, Imelda Marcos. Quase os perdeu quando o marido, Ferdinando Marcos, foi afastado do poder, em 1986. Anos depois, de volta a Manila, inaugurou um museu nos subúrbios desta cidade, numa zona conhecida como a "capital dos sapatos".
Falar de sapatos é também falar de botas. E falar de botas é falar de Oliveira Salazar, que sempre as usou. Para os adversários, eram o símbolo do provincianismo do governante e pretexto para o ridicularizar; para este, devem ter sido quentes e confortáveis, em especial nesta época do ano. Porque, como em tudo o resto, há sempre duas perspectivas sobre uma mesma coisa.
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