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MARCOS CRUZ
Dia histórico. Manoel de Oliveira cumpre hoje 100 anos, quase 80 dos quais a respirar cinema. Nem a singularidade mágica do momento impede, porém, o mais velho realizador do mundo de renunciar aos seus princípios. Por isso recusou o maior galardão que a Câmara do Porto lhe poderia atribuir
Oliveira passará o dia de hoje a filmar
Em Maio de 1987, com as antenas nacionais apontadas à conquista da Taça dos Campeões Europeus pelo FC Porto, um número especial do jornal francês Libération publicava a resposta de 400 cineastas à pergunta "Porque filma?" Manoel de Oliveira acedeu ao repto com um poema. Eram assim os primeiros versos: "Se me perguntarem porque faço cinema,/Logo penso: não perguntam antes se respiro?" Está claro, pois, porque, no dia de hoje, em que comemora 100 anos de vida, Oliveira não queira trocar a rodagem do seu novo filme, Singularidades de uma Rapariga Loira, por qualquer acto celebratório.
O mais velho cineasta do mundo não filma para receber prémios. Poucos acreditarão, porém, que não lhe terá custado recusar as Chaves da Cidade que a Câmara Municipal do Porto se lhe propôs atribuir. A atitude de Oliveira, explicada no passado sábado em conferência de imprensa, ficou a dever-se ao facto de a autarquia ter vindo a assumir, já desde anteriores mandatos, uma postura relativamente a ele que não se coaduna com esta distinção. "Tenho recebido o oposto durante vários anos com três presidentes da câmara, e este ainda agravou mais a situação", afirmou então o realizador, que sublinhou não andar "à procura de benesses".
No centro da polémica está a indefinição em que se prolonga o destino da Casa do Cinema Manoel de Oliveira, mas há, no Porto, quem acredite que o gesto do realizador radique num motivo mais amplo. É o caso de António Reis, da Seiva Trupe, que já filmou com Oliveira e que, aliás, integra o elenco de Singularidadesde uma Rapariga Loira, no papel de cónego: "A cidade, sob o ponto de vista cultural, está de luto. E, nesta altura, uma atitude como a do Manoel de Oliveira, reflectindo isso, é extremamente importante, ou não fosse ele a principal figura da cultura portuense".
Reis não ignora que a razão central da recusa seja o tratamento de que o cineasta tem sido alvo, e também nisso o defende: "Rui Rio pode apoiar ou não apoiar o que ele quiser, só não pode é hostilizar e desrespeitar quem tanto prestígio deu ao Porto e ao País, e menos ainda fazer um aproveitamento oportunista da maior honraria da cidade".
Menos assertivo é Mário Dorminsky, vereador da Câmara de Gaia. "Acho que Manoel de Oliveira tem todo o direito de recusar o que quer que seja. O Woody Allen e o Marlon Brando também o fizeram em Hollywood. Penso, no entanto, que há um erro de análise: as Chaves da Cidade, é uma homenagem do Porto, não de Rui Rio", considera, embora ressalve perceber o "cansaço" de Oliveira pela indefinição em torno da Casa-Museu.
"Um acto simbólico". É como lê Pedro Abrunhosa a atitude do realizador, que já lhe assinou um videoclip e para quem representou em A Carta. "Se a recusa tem a ver com esta vereação, é óbvia, pela afronta que o presidente tem feito à cultura. Nisto enquadra-se o processo morosíssimo da Casa do Cinema", refere, chamando a atenção para o facto de Oliveira ter lançado o Porto no panorama mundial "muito antes das vitórias futebolísticas". Por isso, conclui, "Ele pode não ter as chaves da cidade, mas tem as chaves de casa de todos nós".
Fonte do Ministério da Cultura, citada pela Lusa, adiantou ontem que espera, até amanhã, conseguir um acordo quanto ao futuro da Casa do Cinema Manoel de Oliveira.
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