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artes

O compositor que pôs a eternidade ao alcance dos ouvidos humanos

por

BERNARDO MARIANO  

Música. Centenário de Olivier Messiaen (1908-1992)

Figura singular da música do século XX, Messiaen faria 100 anos neste dia

Foi preciso o ano dar a volta quase completa para a música clássica festejar os centenários natalícios redondos de 2008: o de Olivier Messiaen, falecido em Abril de 1992 e o do norte-americano Elliott Carter, que... completa amanhã 100 anos!

Atenhamo-nos por hoje em Messiaen, pois que esse nasceu num 10 de Dezembro, em Avignon. Compositor, sim, mas igualmente organista, pianista, pedagogo, Messiaen foi uma personalidade de grandeza absolutamente primeira na música do século passado. Nascido para a criação (final dos anos 20) num momento em que as correntes do neo-classicismo e do dodecafonismo se digladiavam pela primazia enquanto vias mais idóneas para a "nova música", Messiaen foi sempre resolutamente moderno, mas também sempre absolutamente pessoal, sem se deixar subsumir em qualquer das correntes estéticas dominantes, dessa ou de qualquer época. Daí ser justo dizer- -se que Messiaen é um "planeta" à parte, isto é: ele conseguiu obter desde cedo aquela "marca" dos grandes mestres que consiste em deter uma linguagem e um som imediatamente reconhecíveis e inconfundíveis.

Para tal contribuiu antes de mais a sua profunda e extravasante fé católica, eivada de misticismo e cultora de tudo o que de gozoso, glorioso e luminoso contêm os diversos mistérios do credo romano - só por uma vez, no Sétimo Quadro do São Francisco de Assis, sua única ópera, é que Messiaen "enfrenta" a dor da Crucifixão.

Em segundo lugar, a sua linguagem melódica, harmónica e rítmica, que expôs de forma muito precisa emu tratado/manual Technique de mon langage musical, publicado em 1944. Os sete modos de transposição limitada que criou enquanto sistema e base de melodia e harmonia; recuperação da monodia gregoriana; investigação profunda sobre o ritmo que empreendeu toda a vida (e passou aos muitos alunos, entre os quais Boulez), aí se incluindo a recuperação da métrica grega (modos rítmicos), uso de tâlas típicas da música indiana, recurso aos valores acrescentados; o sentido muito peculiar da harmonia, facultado pela sua sinopsia, isto é, a faculdade de ver cores ao escutar agregados de sons.

Por fim, e não menos definidor, a marca que na sua música há do canto dos pássaros.

Autor de uma enorme produção que se estende pela música para órgão, piano, de câmara, vocal (com ou sem instrumentos), concertante, sinfónica, coral-sinfónica e a ópera atrás citada, Messiaen merecerá sempre ser conhecido. E fruído.


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