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O ladrão que cortava páginas de livros antigos

por

MARIA JOÃO CAETANO  

Farhad Hakimzadeh. Ao longo de sete anos, um intelectual iraniano consultou livros na British Library e, com um bisturi, foi tirando páginas, mapas e ilustrações. Obras irremediavelmente danificadas

Estragou 150 livros mas acabou por ser apanhado e levado a tribunal

Foi um trabalho de paciência. Ao longo de sete anos, Farhad Hakimzadeh visitou a British Library, em Londres, para consultar alguns documentos e livros antigos e valiosíssimos e, sem que ninguém desconfiasse, com um bisturi cortou cirurgi- camente as folhas de 150 livros que estão, há séculos, na colecção nacional, causando um estrago avaliado em cerca de 400 mil libras (mais de 474 mil euros).

Kristian Jensen, responsável pela colecção de livros impressos mais antigos da biblioteca, vai mais longe e diz que os livros e mapas mutilados e roubados não têm preço. "Há objectos históricos que ficaram danificados para sempre", acusa. "Não se pode desfazer o que foi feito. Este acto comprometeu uma parte dos mapas que documenta os primeiros contactos entre europeus e as regiões do Médio Oriente e China."

Farhad Hakimzadeh, 60 anos, é um empresário iraniano que vive no Reino Unido, embora seja detentor de passaporte americano, formado em Harvard, editor e conhecido intelectual. Na altura dos acontecimentos era director do Iran Heritage Foundation, uma fundação sem fins lucrativos criada em 1995 para promover e preservar a história, a língua e a cultura do Irão.

"Hakimzadeh corresponde ao leitor-tipo da nossa biblioteca: tem um profundo conhecimento na área, o que torna o acto ainda mais detestável, pois ele sabe a importância daquilo que danificou", diz Jensen.

O iraniano não tem problemas de dinheiro, por isso não terá sido esse o móbil do roubo. Ninguém percebe o que o terá levado a cometer um crime, que o levou a tribunal, tendo já sido considerado culpado de 14 contravenções - roubar mapas, páginas e ilustrações de dez livros da British Library e quatro da Bodleian Library, em Oxford. A biblioteca espera receber a devida indemnização.

O furto foi detectado em Junho de 2006 por um leitor da biblioteca que requisitou um exemplar de A Relation of Some Yeares Travaille Begunne Anno 1626, de Thomas Herbert, e chamou a atenção dos responsáveis para a falta de algumas páginas. Especialistas examinaram a obra e confirmaram que as páginas tinham sido meticulosamente cortadas. Foi então montada uma complexa operação para encontrar o autor do crime e também para perceber quais as obras que tinham sido amputadas. Através dos registos electrónicos foi possível fazer uma lista com os nomes de todos os leitores da British Library que tinham requisitado o livro em questão e depois foram examinar outras obras consultadas por essas pessoas.

Foi assim que descobriram outros livros estragados - todos relativos ao mesmo período histórico e versando sobre a relação da Europa com a região hoje como Síria e Bangladesh. As páginas foram cortadas mesmo junto à espinha do livro e os mapas (um dos quais avaliado em 32 mil libras - 38 mil euros) foram removidos dos capítulos, quase sem deixar qualquer rasto. "Apenas os livros requisitados por Hakimzadeh apresentavam um padrão consistente de estragos", explica Jensen. Apesar das evidências, a primeira reacção dele foi negar tudo.

Quando a polícia efectuou buscas em sua casa em Knightsbridge, Londres, em Julho passado, encontrou alguns dos mapas, páginas e ilustrações desaparecidas soltos e outras enxertadas em edições menos valiosas das mesmas obras. No total, Hakimzadeh tinha requisitados 842 livros, dos quais 150 foram mutilados. Algumas das páginas arrancadas foram recuperadas mas outras continuam desaparecidas. E provavelmente nunca mas serão encontradas.


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