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Os cem anos do fundador da antropologia moderna

por

MARIA JOÃO PINTO  

Claude Lévi-Strauss. Homenagem em França

Um dos últimos grandes pensadores do século XX faz 100 anos

Testemunha de um século no mais rigoroso significado do termo, Claude Lévi-Strauss celebra hoje cem anos de vida e de um legado determinante para sucessivas gerações de investigadores no domínio das Ciências Sociais e Humanas.

Cem anos cumpridos, ainda hoje "com saúde e lucidez", como referiu esta semana o director do Museu du Quai Branly, principal palco das homenagens que a França lhe preparou, num mundo muito diferente daquele que conheceu: um mundo a que - ele próprio o disse há alguns anos - "já não pertenço".

Considerado o "pai" da antropologia moderna, não foi por ela, porém, que Lévi-Strauss iniciou a sua formação superior: nascido na Bélgica, a 28 de Novembro de 1908, em Bruxelas, filho de judeus franceses que cedo lhe proporcionaram contacto com o mundo das artes, cursou Direito e Filosofia na Sorbonne, em Paris.

Na década de 30, e após vários anos como professor nos colégios de Mont-de-Marsan e Laon, começava a sua aventura na América do Sul, aventura que o levaria a escrever um dos capítulos mais luminosos da investigação em ciências humanas do século XX: docente da Universidade de S. Paulo, no Brasil, Lévi-Strauss criaria então uma imagem perene no imaginário do investigador ocidental - o sonho de, um dia, poder partir em trabalho de campo para lugares longínquos, para melhor os compreender.

Claude Lévi-Strauss rompeu, de algum modo, com as teorias evolucionistas do séc. XIX e afirmou que o mito é composto por todas as suas variantes; não podendo, por isso, ser estudado isoladamente. As suas missões em Mato Grosso e na Amazónia, onde viveu com as tribos bororo, nambikwara e tupi-kawahib, lançariam as bases de uma "mensagem de dimensão universal que mudou para sempre a nossa percepção do mundo", como realçou, esta semana, o director-geral da UNESCO, Koichiro Matsuura.

Mais tarde, já nos anos 50, e ao serviço daquele organismo das Nações Unidas, Lévi-Strauss levaria de igual modo essa mensagem universalista, de "respeito pela diversidade e pelo Outro", rumo ao Oriente, pelo trabalho que desenvolveu na e sobre a região de Chittagong, actual Bangladesh.

A sua passagem pelos Estados Unidos, na década de 40, seria marcada, uma vez mais, pela docência - na New School for Social Research, em Nova Iorque - e pelo exercício das funções de conselheiro cultural da Embaixada de França em Washington.

No regresso a França, a sua actividade como investigador e docente intensificou-se, tendo então exercido os cargos de sub-director do Museu do Homem, em 1949, e de director da École Pratique des Hautes Études, entre 1950 e 1974, leccionando, em simultâneo, antropologia social no Collège de France, até 1982, ano da sua jubilação. Um dos últimos grandes pensadores do século XX ainda vivos, e um dos últimos rostos do estruturalismo francês, Lévi-Strauss é, desde 1973, membro da Academia Francesa.

As celebrações do seu 100.º aniversário estão a decorrer, entre outros, na Biblioteca Nacional de França, que ontem inaugurou uma exposição alusiva, com o manuscrito de Tristes Trópicos e cadernos de trabalho de campo como acervo mais emblemático. Várias editoras, com um vasto programa de reedições, têm, ao longo do ano, assinalado igualmente a data.

Entre nós, recorde-se, o Instituto Franco-Português, Embaixada de França e Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa promoveram recentemente o colóquio internacional "Corpo e Signos", nos cem anos de Lévi-Strauss e, também, de Merleau-Ponty (1908-1961).

Com A.M.G. e agências


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