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'OS BONS VENCEM SEMPRE'

por

FERNANDA CÂNCIO  

Maria de Lurdes Rodrigues. Sabe- -se pouco da mulher que está no centro do furacão. Secreta mas exposta, estóica mas sensível, dura mas suave, distante mas sedutora, revela-se um pouco aqui

"Há vidas melhores que a de ministra", diz. "Nunca pensei que isto podia acontecer". Isto, a gritaria da rua, dos sindicatos, dos professores em geral, dos comentadores, dos partidos, dos que dentro do PS, em que nunca se filiou ("Saía de casa para me ir inscrever e por qualquer razão isso nunca sucedia"), a contestam/detestam. "Estava muito confiante na minha razão e na necessidade de não continuar a pactuar com o estado de degradação. Considerava que o que estava a fazer era muito importante e que nestes lugares é preciso ter em conta que há muitos interesses e que é preciso defender o interesse público."

Naquela que é seguramente uma das piores semanas da vida da ministra (e da dela?) Maria de Lurdes Rodrigues fala numa voz pausada, fatigada. Mas segura, serena. Não tem tempo, diz, para uma entrevista. Não tem tempo para perfis, nem gosta ("Falar de mim porquê? Não interessa nada"), nem para procurar fotografias antigas, nem aceita entrar no domínio da sua vida privada, apesar de não ignorar que poderia assim dulcificar a imagem de impenetrável, de "cega e surda", de "insensível" e "dama de ferro", esclarecer ou contraditar algumas "informações" (a de que fez um curso do magistério primário e foi professora do ensino básico mas riscou isso do curriculo "por vergonha", por exemplo, como se lê em vários blogues de professores - "Não fiz, mas podia ter feito, algumas colegas do ISCTE tinham esse percurso, não vejo qual o problema")e lendas que correm sobre ela ("Acho que tenho a obrigação de proteger as pessoas que me estão próximas, quero evitar o mais possível que sofram pelo efeito da minha exposição pública. Já vimos os media destruírem pessoas da forma mais absurda").

Nada como fotografias de bebé e de menina de totós, ou adolescente de bata no colégio de Santa Clara ou no liceu Maria Amália entre as colegas, nada como o sorriso esbatido, tão tão jovem e esperançado de um dia de casamento (em 1977, com um engenheiro, findo em divórcio), nada como a cooperante recém-casada que quis "ir fazer a revolução em Moçambique", confrontada no colorido Kodak com a miséria e a fome, a violência dos "costumes" (quis impedir o casamento de uma menina de 12 anos com um homem de 30) e do novo regime e da sua "lei do chicote" ("é muito duro, uma pessoa não aguenta"); nada como o rosto da jovem mãe com a filha única (nascida em 1983, em Lisboa) ou a solidão deslumbrante de uma paisagem estranha, lunar, no meio da Austrália ("Sentir o sentimento de total liberdade, estar num sítio e ninguém no mundo saber onde estou - e isso é bom"), para decifrar nos corações outros nomes para a ministra má, que não cede nem dialoga e que até aos estudantes, mesmo se não sabem bem porquê, mereceu arremesso de ovos e tomates. Mas não, ela não quer nem tem tempo. Acaba por ceder, porém. Fala por três vezes, em intervalos de reuniões, antes de reuniões, depois de reuniões. Às nove da manhã, num carro a caminho de um encontro com professores. Às 11 e tal da manhã, depois do encontro, às seis da tarde. A voz sem sobressaltos condiz com o estoicismo desassombrado (que outra coisa dizer de alguém que se sai com "é preciso ir encontrando sentidos para a vida, porque não tem"?) . O estoicismo de rosto e pose com que anuncia, na quinta-feira, após um conselho de ministros "extraordinário", os ajustes na avaliação e portanto na posição do ministério face à contestação dos professores, num dia em que ainda há-de ir à Grande Entrevista da RTP explicar porque é que o que parece ser uma cedência não o é ( "O processo de avaliação não foi beliscado no seu essencial"). Ela tinha já dito que "é preciso ouvir e perceber, mesmo que no final não se aceite. Compreender e ter capacidade de negociar e salvar o essencial dos processos. Ter disponibilidade para aprender, e eu tenho."

É isso, disponibilidade para ouvir e aprender, mais organização, empenho e clareza, que Lieve Meersschaert, uma belga que se tornou conhecida pela sua actividade na Associação Moinho da Juventude, no bairro clandestino da Cova da Moura, mais reteve do trabalho desenvolvido com Lurdes Rodrigues nos anos 80, no âmbito da SEIES (Sociedade de Estudos e Intervenção em Engenharia Social), uma cooperativa que investia na formação e que, com os primeiros fundos europeus, organizou cursos para jovens em risco dos bairros da Curraleira e Santa Filomena. "Não queriamos essas coisas da caridade, mas que as pessoas fossem descobrindo as suas capacidades, no sentido do empowerment. Fazíamos muito boa preparação, com ela nunca senti a coisa muito portuguesa do improviso. Gostei muito do nosso trabalho, era muito claro. Tenho dela a percepção de alguém que ouve e está interessada. Se é autoritária? Acho que vai para a frente quando está convencida que tem razão. Mas se lhe conseguem explicar as coisas ela aceita.Ouve os argumentos" Encontrou-a, desde então, poucas vezes. Assiste ao trajecto da ministra de longe, mas atenta. "Quando cheguei da Bélgica assustou-me o fosso entre a educação lá e cá - os buracos no horário, ninguém para tomar conta dos miúdos - e sinto que ela está a tentar fazer alguma coisa, mas não é fácil."

Não é. De tal modo que as críticas podem vir do flanco, dos amigos, como o ex-professor e colega sociólogo Manuel Villaverde Cabral. "Acredito piamente que ela está convencida de que tem razão mas não tem. Acho que está a vitimizar os professores. Está, pior que isso, a puni-los." Nada de psicológico ou de temperamental, porém: "Para mim é um conflito político. Se calhar inevitável porque comprou demasiadas lutas ao mesmo tempo. É uma pessoa voluntariosa e gosta de cumprir as tarefas que se propõe, e a certa altura a maré virou contra. Tornou-se uma questão simbólica para os professores, que estão realmente revoltados. Creio que a posição dela é insustentável."

Mas ela sustenta-se. Determinada ou obstinada? Um outro colega e amigo "não de frequência quotidiana", António Firmino, que frequentou a licenciatura de sociologia no ISCTE na mesma altura embora em anos diferentes (tem 58, a ministra 52), desfaz o nó. "Na sociologia consideramos que ser teimosa, obstinada e determinada é o mesmo, depende da perspectiva.E tem havido muita interpretação selectiva." Na sua apreciação, é "uma mulher muito preparada, muito capaz e inteligente, com a determinação de fazer coisas úteis nas áreas em que se envolve". E "muito forte. Conseguir ou não o que se propôs não a vai abalar muito. É para o país que é muito importante -- o processo educativo tem estado sempre atrasado."

Salvar o essencial, então: mas para isso é preciso identificar o que é, o essencial. O essencial para a lisboeta Maria de Lurdes Rodrigues, filha única que não fala da família nem da infância ("Tenho direito à minha privacidade e às minhas memórias e à minha vida"), especialista em sociologia do trabalho, anarquista e ministra. Anarquista, sim - fez parte do grupo da revista Ideia. Como é que uma anarquista faz frente ao poder da rua? "É uma boa questão. Mas para mim o anarquismo não era apenas método, era mais uma questão de filosofia, de sistema de valores, de valorização do espaço da liberdade individual mas também a necessidade de equilíbrio entre o interesse individual e o colectivo. E acho que estamos num momento em que está em causa a defesa da democracia, quando se coloca a hipótese de tudo se decidir de votação de braço no ar, em referendo. " Suspira. "Ainda me sinto anarquista, mas não sei o que é ser anarquista hoje. Precisava de estar menos cansada para responder a isso."

O essencial, então. Em Moçambique, salvar um bebé. "Trabalhava numa fábrica, como responsável do sector social, e na creche a responsável falou-me de dois gémeos, o Manel João e o Manelzinho João - tinham o mesmo nome - e de ser necessário que um morresse para que o outro se salvasse, 'porque a alma era a mesma'. Fiquei obcecada pelo miúdo. Cheguei a interná-lo no hospital, fui muito intrusiva. Salvei-o, mas um antropólogo disse-me que seria sempre um infeliz porque devia ter morrido -cheguei a pensar em adoptá-lo..." Respira fundo. "Era muito nova, sabia muito pouco, e sentia-me muito impotente. Tinha demasiadas responsabilidades para a idade e para a experiência. "

Voltou para Portugal em 1982, "quando começou a guerra e o regime começou a endurecer. Assisti a coisas terríveis". Regressou ao ISCTE, para terminar o curso do sociologia - um curso que descobriu no dia em que saiu da casa para se inscrever na faculdade: pensava ir para economia, e alguém, não se recorda quem, falou-lhe de um novo instituto, o ISCTE. "Não me lembro como é que decidi, mas no fim do dia estava lá inscrita." 31 anos depois, com um doutoramento e muitos ensaios, trabalhos de campo e livros pelo meio, mais o ensino no ISCTE, a Biblioteca Nacional e a criação do Observatório de Ciência e Tecnologia sob a batuta do amigo Mariano Gago, é convidada para dirigir um ministério. "Fui apanhada de surpresa. Há quem inicie carreira política muito cedo, não foi o meu caso. Pedi todo o tempo que me foi dado para pensar. O que me fez aceitar foi a resolução do problema da qualificação dos adultos, era uma preocupação minha de há muito, espécie de pagamento de uma dívida que o país tem com as gerações anteriores."

É a pior semana para um balanço, ou talvez a melhor. "Os sentimentos de grande entusiasmo ou de grande arrependimento estão-nos sempre a acontecer... Do que estava no programa acho que cumprimos quase tudo." Até ver. E bis? Suspira. "Não sei, não tenho uma vida assim tão programada. Tive sempre a sorte de haver estímulos exteriores que me indicam o caminho, pessoas que confiam em mim. E há, sempre houve, muitas coisas que me entusiasmam. Às vezes ainda penso ir tirar um curso de História de Arte, de restauro, gosto de trabalhos de mãos... Ainda hoje tenho a ideia de que se pode ter diferentes futuros."Ser uma caricatura do ódio para 120 mil pessoas? "Consigo ter um grande distanciamento. Não me revejo nessa imagem. Tenho de ter presente quem sou. E lido com isso compensando com muito contacto com as pessoas. Chego a uma escola, à sala dos professores, e sento-me a conversar. O ambiente começa muito tenso, depois melhora. Falo sempre que tenho oportunidade, mesmo quando me abordam na rua, no supermercado, e abordam-me muito. São bondosas as pessoas no geral quando se aproximam, não são conversas agressivas. Nesses espaços sinto que consigo afirmar-me pelo que sou. Até digo que não costumo perder uma conversa." Sente-se inflexível? "Tendemos sempre a defender-nos, não é? Mas acho que não - não se pode estar num lugar de responsabilidade e ser cego ou surdo, não creio que se tenha muito êxito."

Falamos pela última vez na quarta-feira, o dia antes do conselho de ministros extraordinário, quando se antecipa que vão deixá-la cair. Combinamos um almoço - o tal que não chegou a acontecer. "Se isto acabar em bem", diz. "Um amigo meu costuma dizer que os bons ganham sempre, e que se não ganharam é porque a história ainda não acabou. É uma ideia feliz". Faz uma pausa. "Ou talvez acabar em bem seja acharmos que fizemos o que devíamos fazer - ficarmos bem perante nós próprios."|


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