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FRANCISCO ALMEIDA LEITE
Polémica. Uma pequena e mal usada frase da líder do PSD vai marcar a vida política portuguesa nos próximos tempos. Ferreira Leite perguntou se não seria melhor suspender a democracia por seis meses para aplicar reformas. No PSD, agitaram-se de novo as oposições à sua liderança. O PS, o PCP e o PP, levando à letra a frase, já exigiram explicações
Um tiro no pé? Ou um exercício de ironia fina? Manuela Ferreira Leite causou ontem um turbilhão político dentro e fora do PSD por causa de um discurso proferido num almoço organizado pela Câmara de Comércio Americana em Portugal, num hotel de Lisboa.
"Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia [pausa]. Quando não se está em democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se [pausa]. E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia", afirmou Manuela Ferreira Leite, perante alguns sorrisos (poucos) dos presentes na sala do hotel. "Agora, em democracia efectivamente não se pode hostilizar uma classe profissional para de seguida ter a opinião pública contra essa classe profissional e então depois entrar a reformar", continuou a líder do PSD.
Perante estas palavras, os jornalistas presentes na sala ficaram atónitos e procuraram uma reacção da presidente social-democrata, que se recusou a comentar o assunto à saída.
A verdade é que a presidente do PSD tinha feito antes uma longa exposição com várias críticas ao Governo, dando a entender, com um leve recurso à ironia, de que em democracia não se fazem reformas sem as classes socio-profissionais. Quando a notícia estalou nas rádios e nas televisões, foi esta a ideia que o gabinete de Ferreira Leite se esforçou por fazer passar, com uma acção de spining rara nesta direcção social-democrata. Os elementos mais próximos da líder perceberam o impacto da gaffe e quiseram reduzir danos escolhendo como escudo a ironia várias vezes usada no discurso de ontem.
A pessoa escolhida para ler o comunicado da direcção ao final da tarde - e numa altura em que Governo, PS, PCP, CDS e oposição interna já tinham reagido negativamente às declarações - foi Luís Marques Guedes, secretário-geral do partido e um dos homens mais próximos da líder. O dirigente não só não aborda o cerne da política, como elege Alberto Martins, líder parlamentar do PS, e os jornalistas como alvos do seu comunicado. O primeiro teve uma reacção imprópria, os segundos terão sido os responsáveis por "truncar" as declarações da líder.
Comunicado à parte, Marques Guedes ainda acrescentaria que "a reacção da sala é uma reacção irónica, de sorrisos, quando a dra. Manuela faz essa crítica velada à forma de governar errática, autoritária, deste Governo". Marques Guedes não esteve presente no dito almoço, ao contrário, por exemplo, de José Pedro Aguiar- -Branco ou Leonor Beleza.
Mas o discurso teve outros pontos fortes para além deste. A dada altura, Manuela Ferreira Leite revelou também algumas ideias neo-liberais a respeito da situação económica: "O que falhou nesta crise financeira foi um sistema de supervisão e controle que manifestamente não funcionou. Não foi a existência de mercado, nem de liberalismos". Neste ponto, a líder do PSD criticou o intervencionismo de certos governos, incluindo o português, e adiantou que isso conduz a uma fase "socializante".
A presidente do PSD defendeu ainda uma forma de incentivar o empreendorismo: "Era necessário eliminar os custos do encerramento. Uma empresa que quer encerrar, encerra sem quaisquer custos adicionais".
O DN tentou ontem ouvir Manuela Ferreira Leite sobre o enquadramento da frase que entretanto se tornara polémica, mas a líder do PSD declinou a proposta feita várias vezes. |
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