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LUÍS NAVES
Estados Unidos. Barack Obama escolheu para seu chefe do Gabinete, a posição mais poderosa da Administração (logo a seguir a presidente e vice-presidente), uma figura carismática do Congresso, negociador feroz e dirigente democrata vencedor
Em Março de 2001, Rahm Emanuel publicou um texto no Los Angeles Times onde apontava os erros que George W. Bush, na sua opinião, estaria a cometer. Ironicamente, se o então novo Presidente republicano tivesse seguido os conselhos do antigo assessor de Bill Clinton, talvez não tivesse provocado os equívocos que condenaram a sua Administração a um duro veredicto da História.
Rahm Emanuel, 48 anos, será o chefe de gabinete da futura Administração de Barack Obama, o que significa que receberá a responsabilidade pela coordenação do processo de tomada de decisões. É uma posição-chave na nova ordem de poder. No fundo, este ambicioso chefe político de Chicago, conhecido pela sua audácia e ferocidade é, para já, a figura mais influente no núcleo duro de conselheiros próximos do Presidente.
Se o texto de Rahm é indicação, a Administração de Obama tentará ser precisa nas escolhas para o gabinete e perderá pouco tempo com o processo de confirmação dos nomes. Os meses iniciais serão decisivos e o novo Presidente deverá lançar as suas ideias de forma organizada e criar uma boa primeira impressão. A governação será centrista, visando a criação de uma maioria estável.
O fundamental é não repetir os erros de Bill Clinton e de George W. Bush. "Os primeiros tropeções da Administração Clinton (homossexuais no exército e reformas na saúde) deram uma impressão de que éramos mais liberais [mais à esquerda] do que tínhamos dito. Estes foram grandes erros, pelos quais pagámos muito caro, nós e o partido, em 1994", escreveu Emanuel no texto já citado.
Isto foi antes do 11 de Setembro, do Iraque, do Katrina e da "exuberância irracional", mas as palavras foram proféticas. Dito isto, Rahm Emanuel não podia ser mais diferente de Barack Obama, excepto na magreza do corpo e no curso de Direito. O chefe de gabinete tem estatura baixa, fala rápido e parece acelerado, estudou ballet na juventude. Mas também pertence a uma minoria: é um judeu devoto, tendo pedido ao seu rabi uma dispensa especial que lhe permitiu participar nas recentes negociações do pacote de salvamento financeiro, as quais interromperam o feriado judaico de Rosh Hashanah. Depois de estar na Casa Branca e antes de entrar no Congresso, Emanuel trabalhou na banca de investimento e ficou rico. Pertenceu à administração da Freddie Mac, agora nacionalizada.
Eleito para o Congresso pela primeira vez em 2002, pelo quinto distrito de Ilinóis, o estado de Obama, Rahm Emanuel é conhecido pelos seus amigos como "Rahmbo", alcunha que traduz um temperamento impiedoso e lutador face aos adversários políticos. Aliás, não restam muitos destes últimos para contar como é entrar em choque com o jovem congressista.
Os vastos contactos de Emanuel permitiram-lhe liderar a conquista democrática da Câmara dos Representantes, em 2006, feito reforçado dois anos depois e que o partido tentará repetir em 2010. Ele é "tu cá, tu lá" com os principais jornalistas políticos. Em resumo, um bom conhecedor dos labirintos de Washington.
Este forte carácter também deu origem a histórias divertidas, de natureza semi-lendária, que revelam uma personalidade que não recusa a controvérsia. A mais famosa é a do peixe morto, que Emanuel enviou a um analista que lhe desagradava. O New York Times conta um episódio em que o jovem conselheiro participava com outros colegas na elaboração de uma lista de adversários da Administração Clinton, logo após as eleições de 92. As coisas passavam-se civilizadamente, até que alguém mencionou um nome. De súbito, Emanuel cravou o garfo na mesa e gritou: "Morto". E a reunião transformou-se. Alguém dizia um nome e todos gritavam, entre gargalhadas, "morto".
Isto é quase Hollywood e, de facto, Emanuel tem uma ligação com o cinema, pois um dos seus irmãos, Ari, é um importante agente de vedetas, com grande influência na indústria dos sonhos. Aliás, diz-se que Rahm Emanuel inspirou a personagem do vice-chefe de gabinete Josh Lyman, na popular série de TV The West Wing (Os Homens do Presidente). Trata-se de uma personagem positiva, que sobe a chefe de gabinete de um Presidente que pertence a uma minoria étnica (a vida imita a ficção). Enfim, voltando à realidade, na verdadeira Casa Branca estará a partir do próximo ano o Emanuel original, o braço direito do Presidente.|
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