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HELENA TECEDEIRO (Texto) PAULO SOUSA COELHO (Foto) Enviados a Reiquejavique
Islândia. Joana, Ana Rita, Liliana, António, Sara, Ricardo, Bento e Nuno. Todos eles deixaram Portugal para procurar melhor sorte nesta ilha do Atlântico Norte. Confrontados com a crise no país que os acolheu, queixam-se do aumento dos preços no supermercado, mas ainda não estão a pensar regressar
Portugueses dizem que língua é o mais difícil na adaptação
Quando o Benfica marca frente ao Hertha de Berlim num jogo a contar para a Taça UEFA grita-se um "Golo!" tímido mas sentido no Classic Bar em Reiquejavique. O cachecol com o verde e o vermelho da bandeira portuguesa não engana, este é um dos refúgios que os imigrantes portugueses na Islândia encontraram para fugir do frio e da escuridão que se estende por longas horas neste país afastado três mil quilómetros da sua terra.
Hoje são só três, mas ao todo vivem mais quase 900 portugueses na Islândia. "Eles são um povo diferente. Fechado, frio", diz Joana Pavão enquanto bebe a cerveja Viking, sentada ao balcão frente ao ecrã onde convenceu o empregado a sintonizar o jogo dos encarnados. E acrescenta: "Não é como a nossa", com um gesto de cabeça em direcção ao copo.
Mas o sabor da cerveja não foi a única coisa a que esta morena com ar de menina, apesar dos 31 anos, teve de se habituar quando decidiu rumar a norte para jogar na equipa de futebol feminino do Knattspynudeild IR. Antes disso estivera algum tempo em Espanha, com outras jogadoras portuguesas. Em troca da sua experiência, os dirigentes do clube islandês ofereceram a três delas casa, carro e um emprego na respectiva área de formação. Agora, a três mil quilómetros de casa e com a crise a bater à porta do país que a recebeu, Joana diz que ainda não notou grande diferença. "É mau sobretudo para quem quer sair do país e não consegue trocar dinheiro. Para nós, só no supermercado é que os produtos importados estão mais caros", afirma a funcionária dos correios.
Pronunciar o nome do clube onde ingressou com as suas amigas portuguesas foi a primeira dificuldade. Ainda hoje Joana só lhe chama IR. "Não falo a língua, mas consigo entender o que me dizem", explica enquanto garante que no trabalho só fala inglês. Natural de Lisboa, Joana veio para a Islândia com Ana Rita, que, nos poucos momentos em que desvia os olhos do ecrã, lê a conversa nos lábios, uma vez que é surda-muda. O último elemento do trio, Liliana Martins, foi impedida de assistir ao jogo do Benfica por ainda estar a trabalhar na Blue Lagoon, onde é massagista.
É de cabelo a pingar e casaco vermelho vestido que um dia depois Liliana aparece na entrada do spa criado em torno da lagoa que os minerais tornam azul-bebé, um contraste surpreendente com a rocha negra e a neve de um branco imaculado que a cobre em parte. Depois de um ano a lidar com islandeses todos os dias, a portuguesa concorda com Joana quando se trata de fazer o retrato dos habitantes deste país primeiro colonizado pelo fugitivo norueguês Ingólfur Arnarson. "As pessoas não são tão afáveis como em Portugal ou Espanha", admite Liliana.
Licenciada em Educação Física, esta portuguesa de 27 anos frequenta o curso de Informática na Universidade de Reiquejavique e para isso está a aprender islandês. "O nosso dia-a-dia passa-se muito entre portugueses." E em casa de um tal "senhor Amândio", que surge várias vezes na conversa apesar de estar ausente, não faltam sequer umas feijoadas quando a saudade aperta.
Quanto à tão falada crise, a massagista diz que na Lagoa ainda não se sentiu, mas admite que "os islandeses estavam habituado a viver à grande, costumavam viajar muito. Agora, isso vai dar uma grande volta". E ser imigrante num país à beira da bancarrota ainda vale a pena? "Estamos a ver o que acontece", suspira Liliana. E acrescenta: "Se não der, como se costuma dizer, quem está mal muda-se."
Menos decidido a deixar o país que o acolheu há mais de 20 anos está António Grave. Enquanto espreita o Benfica pelo canto do olho, o fisioterapeuta admite que em tantos anos nunca apanhou "uma crise como esta, com uma tal oscilação da moeda". E a culpa, este homem de 57 anos não tem dúvidas, é do Governo. "Com o crescimento dos bancos, o dinheiro saiu da Islândia para o estrangeiro. Por isso dizem que são os banqueiros os responsáveis. Mas tudo começou com a privatização dos bancos", explica António enquanto gesticula. O Benfica, já empatado a um golo, fica esquecido no ecrã.
Nascido em Angola, António viveu em Carcavelos até vir para a Islândia a convite de uma hospedeira - na altura ainda não se chamavam hospedeiras de bordo - sua paciente em Lisboa. Nessa altura, os imigrantes ainda eram uma raridade na Islândia, e António admite que, por vezes, o olhavam de lado. Mas agora, com a vida organizada em Reiquejavique, não pensa voltar para Portugal. "Estar na Islândia é viver uma aventura constante", garante.
Sentados a uma mesa do café Hljömalind, na Laugavegur, a principal rua comercial da capital islandesa, Sara Matos, Ricardo Ferreira e David Ferreirinha ficam surpreendidos por alguém os interpelar em português. Ricardo veio para a Islândia com 12 anos quando os pais imigraram para Reiquejavique. Cozinheiro, o restaurante onde trabalhava fechou por causa da crise. Mas este português, de 27 anos, está optimista. "Para nós não se nota uma grande diferença. Depende como a pessoa vive. O pessoal daqui é muito consumista", afirma, debruçado sobre a mesa. Há apenas um ano na Islândia, Sara concorda com o diagnóstico: "A crise só se sente para quem tem empréstimos. Para nós que temos casa alugada e vivemos do essencial, só se vê nos preços altos."
Perante os acontecimentos das últimas semanas, arrependida? Sara garante que ainda não. "Para viver como imigrante, a Islândia já não vale a pena. É preferível a Dinamarca ou a Noruega. Mas a qualidade de vida aqui compensa. Podemos vir ao café nas folgas, temos segurança social que cobre tudo", explica esta empregada de mesa que trabalha no restaurante Tivoli, umas portas abaixo do Hljömalind.
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