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por
João César das Neves
Professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
O casamento é uma coisa impossível. A simples descrição chega para o constatar. Duas pessoas unidas para toda a vida e dedicadas às mais difíceis tarefas da humanidade - educar crianças, aturar jovens, assistir a idosos - é uma clara impossibilidade. Quem tentar a experiência imediatamente confirma os enormes obstáculos que se levantam ao que inicialmente parecia um doce romance. Não existem casais sem problemas. Há os que os ultrapassam e os que não os ultrapassam. Todo o verdadeiro amor passa pela cruz.
Essa impossibilidade, no entanto, tornou-se há séculos comum e habitual graças a uma das mais extraordinárias forças do planeta, a civilização. Controlando e elevando os instintos básicos do ser humano, a civilização consegue maravilhas, realizando até impossibilidades práticas, como o casamento, democracia, matemática, ópera ou doçaria regional.
Infelizmente de vez em quando aparecem uns políticos que, descobrindo com surpresa aquilo que toda a gente sempre soube, decidem usar a lei para atacar a civilização. Aconteceu recentemente entre nós com as iniciativas legislativas sobre o divórcio.
Argumentando que a vida conjugal é difícil e por isso falha com frequência, deduzem a necessidade de enfraquecer o laço legal que a consagra. Assim as instituições e regulamentos deixam de apoiar e suportar a cultura para passar irresponsavelmente a promover a barbárie.
Esta atitude não é rara. Pelo contrário, repete-se sucessivamente ao longo das épocas. Por exemplo, no tempo dos nossos avós verificou-se um processo semelhante com o tratamento do diálogo intercultural. Pode dizer-se que as relações harmónicas entre povos e costumes diferentes são uma impossibilidade social. A atitude normal seria o desentendimento, como mostram séculos de guerras e conflitos. Também aí a civilização conseguiu avanços importantes e muitos lugares sempre viveram episódios pacíficos de sociedades plurirraciais. Mas há 80 anos alguns políticos europeus, constatando as evidentes dificuldades na relação entre os povos, decidiram eliminar as leis que a promoviam e publicar legislação racista e nacionalista. O resultado foi a infâmia nazi e o holocausto judeu.
Temos também exemplos inversos, com a política a fazer esforços monumentais para nos levar a praticar algo que pode ser considerado uma impossibilidade. Proteger o ambiente, salvaguardar a paisagem e defender as espécies vivas não está nos instintos naturais do ser humano. Só a civilização o pode concretizar. Precisamente por isso os nossos governantes estão intensamente dedicados a criar leis e instituições que nos orientem nesse sentido. Pena que tomem atitude inversa na família.
A civilização é uma construção vasta e complexa, continuamente sob fogo de ataques da barbárie. Por isso em todas as gerações existe sempre algum cantinho que ameaça ruína. Uma vez rompida a muralha defensiva, a selvajaria penetra na sociedade e pratica terríveis devastações. As consequências desastrosas são depois corrigidas a custo pelos descendentes, que censuram amargamente os progenitores. Os nossos avós foram racistas, os nossos pais, poluidores. Nós, repudiando fortemente esses erros, fazemos todos os esforços para reforçar as respectivas zonas da fortificação, com leis e campanhas que defendam a cultura. Só que ao fazê-lo deixamos desprotegidas outras áreas, onde se travarão as batalhas futuras.
Esta mistura ambígua de civilização e brutalidade é visível hoje como sempre. Perante os problemas, cada época saltita entre uma posição de combate ou tolerância. A sociedade ocidental luta com ardor pela justiça social e consciência ambiental, ética empresarial e diálogo intercultural, onde os seus antepassados cederam. É inflexível em tantos aspectos, que pode parecer estranho que ceda à crueza mais boçal nas leis familiares. Ninguém nos ganha em sofisticação científica e artística, mas as nossas atitudes perante divórcio e promiscuidade, aborto e eutanásia, pornografia e prostituição horrorizariam até a tribo mais primitiva.|
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