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FERNANDO MADAÍL
Homero e Pessoa, Rimbaud e Borges, O Cântico dos Cânticos e Astérix, O Gaulês, Gil Vicente e George Steiner, Walt Withman e Bob Dylan, Sena e Cesariny - a lista de nomes que já foram traduzidos por Amadeu Ferreira para o mirandês parece quase um ficheiro de biblioteca. Mas o grande desafio foi mesmo verter Os Lusíadas para o idioma em que D. Afonso Henriques conversaria com os seus primos em Toledo (o mirandês é muito parecido com o leonês).
Entre OPA e OPV, pois é vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), dedicava os tempos livres a trabalhar métrica, rima e acentuação da obra de Camões numa língua que terá uns dez mil falantes e se tornou mais conhecida devido à Internet - além do seu blogue pessoal, Cumo quien bai de camino (http/lhengua.blogspot.com/), é administrador do Froles Mirandesas (http://frolesmirandesas.blogspot.com/), onde se encontra de tudo no idioma que é mais antigo que Portugal, incluindo links para jornais escolares ou espaços eróticos.
"Habituado a versejar desde miúdo" - e com uma vasta obra poética publicada com o pseudónimo Fracisco Niebro - , "o problema não foi encontrar rimas ricas, mas conseguir manter a musicalidade do poema, essa combinação entre a rima e a acentuação na sexta e na décima sílaba." Agora, quando está pronta a tradução, que será editada primeiro numa versão da banda desenhada que José Ruy fez de Os Lusíadas (com chancela da Âncora) e depois em livro, Amadeu Ferreira admite que, um dia, poderá abalançar-se a fazer o mesmo com Hamlet, de Shakespeare - ou não fosse também um apaixonado pelo teatro, com experiência de palco e peças publicadas.
Aliás, a vida do presidente da Associação da Língua Mirandesa e também da Assembleia Geral da Máscara Ibérica - que tudo lhe interessa, das fontes de Leite de Vasconcelos, que incluiu uma Camoniana Mirandesa (além de duas estrofes de Os Lusíadas, traduziu Endechas a Bárbara Escrava e partes do teatro) no segundo volume de Estudos de Filologia Mirandesa, às gravações pioneiras que o musicólogo Kurt Schindler fez dos Pauliteiros de Miranda - é uma saga.
"Empurrado pelo cura e pela professora", aos dez anos deixou a aldeia de Sendim para ir estudar no Seminário de Bragança, de onde seria convidado a sair pelas posições que defendeu na sequência dos ecos que ali chegavam das eleições de 1969 e, sobretudo, do concílio Vaticano II - uns padres jovens, regressados de Roma, leccionavam uma cadeira chamada Filosofia do Comunismo, para depois explicarem como se deviam refutar as teses marxistas, mas obtinham o efeito contrário.
Passou a viver das explicações de Latim, Filosofia e Português. Depois, incorporado na tropa - onde seria visto a ler A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels -, estava no Depósito Geral de Adidos no 25 de Abril de 1974 e a sua unidade, depois de quebrado o vidro da moldura do retrato de Marcelo Caetano com a rolha que saltou da garrafa de champanhe, foi ocupar a sede da Legião Portuguesa.
Regressou a Trás-os-Montes, onde trabalhou no campo (sempre apreciou lavrar ou podar), mas também como ajudante de trolha ou no escritório da adega cooperativa. Pouco tempo volvido, já em Lisboa, era coordenador do secretariado da UDP (até substituiu, por dois meses, Mário Tomé como deputado), de onde seria expulso por "desvio de direita". Estava no último ano de Filosofia quando decidiu que, para ganhar a vida, seria melhor tirar Direito. Entretanto, passou mais de um ano desempregado, vendeu publicidade para o Guia Mor e deu aulas de música no secundário, pois tinha estudado no seminário Teoria Musical e Canto Gregoriano - e, nesta época de docente, inscreveu-se no curso de composição da Academia dos Amadores de Música.
Concluída a licenciatura em Direito, chegou atrasado para a escolha do tema de mestrado e já só havia o título "ordem de bolsa", cujo conteúdo, então, ignorava. Mas o assunto acabaria por lhe despertar um forte interesse científico e, após publicar a primeira tese portuguesa sobre Valores Mobiliários Escriturais (ed. Almedina), seria convidado para inaugurar a cadeira de Títulos de Créditos e Valores Mobiliários na Universidade Nova de Lisboa. Em 1991, Amadeu Ferreira, um dos autores do novo Código do Mercado dos Valores Mobiliários, também foi convidado para o lugar onde ainda hoje se mantém.
Mas quando sai do imponente edifício da CMVM, sem ligar ao sono, vai tratar da sua paixão, que se pode sintetizar no título de um dos seus textos: çtino para ua lhengua marimunda (isto é, destino de uma língua moribunda).|
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